Participei da última reunião do ano do NE (Núcleo Estratégico) Cultura no Consórcio Intermunicipal Grande ABC e confesso que o clima foi frustrante, melancólico mesmo, como, aliás, também o foi todo este ano, em que pese alguns (poucos) avanços.
Para quem, como eu, participa da vida cultural da região há 30 anos, é sempre desanimador constatar que, após a luta para galgar dois degraus, despencamos cinco. É como se estivéssemos praticando um alpinismo constante num terreno improvável, no qual jamais se alcança o topo, típica tarefa de Sísifo.
Temos relatado neste blog as atividades do Fórum Permanente de Debates Culturais, instaurado em novembro de 2007 e que, desde então, se reúne mensalmente na livraria Alpharrabio. Igualmente temos noticiado sobre os trabalhos do NE Cultura (Núcleo Estratégico Cultura) do Consórcio Intermunicipal ABC, antigo GT (Grupo de Trabalho), graças às gestões de representantes do Fórum junto ao Consórcio. O NE reúne as sete secretarias de cultura das sete cidades da região do Grande ABC e representantes do Fórum (Sociedade Civil).
Quem acompanhou as discussões e leu esses relatos bem pode aquilatar a intensidade e o alto nível dos debates e propostas daí resultantes.
Entretanto, as coisas nem sempre são o que parecem ser e não andam como deveriam andar. Senão vejamos:
Em março de 2008, o GT Cultura no Consórcio, coordenado pela primeira vez por um representante da sociedade civil, conseguiu o feito de reunir os 7 secretários municipais de cultura que, à época, encontravam-se no último ano de suas respectivas gestões públicas e curiosamente sequer se conheciam pessoalmente, muito menos haviam, até então, levantado quais possibilidade de ação integrada regional.
Pois bem, houve ali uma demonstração de vontades em fazer valer as propostas (apresentadas pela sociedade civil) de revisão do Planejamento Estratégico Regional no eixo da cultura, visando a ações integradas regionais, à cultura como centralidade e transversalidade. Essa vontade foi igualmente manifestada no início deste ano de 2009 pelos secretários que representam as atuais administrações, à época, recém-empossadas, bem como durante a Oficina de Planejamento Estratégico do Núcleo Estratégico Cultura promovida pelo Consórcio, realizada nas dependências do SENAC.
Sim, senhor, muito bem, é maravilhoso, vamos tocar… mas… estas foram as únicas oportunidades em que os senhores secretários (as) se dignaram a comparecer neste ano às reuniões mensais do NE, enviando, quando muito, representantes.
Apesar dos nítidos esforços do setor administrativo do Consórcio que contratou funcionário com a função específica de acompanhar, sistematizar informações e lhes dar o devido encaminhamento às propostas do NE, pouco se avançou.
A apresentação pela sociedade civil do projeto de um Censo Cultural regional amplo, de caráter analítico e quantitativo foi acatada e passou-se a aperfeiçoar esse projeto. Assim como esse, outros projetos e intenções foram debatidos e, lamentavelmente, nenhum deles concluídos. De concreto mesmo, conseguimos que a agenda cultural regional (limitada, até o momento, às atividades bancadas pelo poder público) fosse incluída no Portal do Consórcio. É muito pouco, convenhamos, para dois anos de trabalho.
Tudo continua patinando, simplesmente porque os senhores(as) secretários(as) habitam alguma espécie de cápsula (tomara que seja hiperbárica e esteja oxigenando seus cérebros) que os deixa inacessíveis e incomunicáveis.
Ao que parece, ninguém tem acesso a eles, nem mesmo seus assessores que os representam nas reuniões e, por nunca serem os mesmos, não detêm as informações sobre o processo da discussão acumulada, não trazem respostas às questões anteriores (a justificativa é sempre a mesma: o secretário não respondeu, não houve oportunidade para falar com o secretário) e muito menos possuem poder de decisões. Assim, patina-se, patina-se e ninguém sai do ring.
O senhores(as) secretários(as) encapsulados(as) tampouco adquiriram o hábito de responder aos emails nem aos convites que lhes são dirigidos. Para citar apenas um exemplo, foram convidados, através de ofício impresso e também de email, para um Colóquio de Políticas Públicas da Cultura, iniciativa da Universidade Metodista de São Paulo, em parceria com o Fórum de Cultura. Apenas dois dos sete tiveram a delicadeza de responder, aceitando ou justificando a recusa, ainda que cobranças insistentes lhes fossem feitas. O resultado foi o cancelamento do Colóquio, pelo absoluto desdém demonstrado à iniciativa. Mais recentemente, também não se conseguiu uma resposta a outra convite, desta feita, para cooperação mútua entre Universidade Metodista, Secretarias e Fórum, num projeto sobre políticas públicas a ser encaminhado à FAPESP.
As Universidades não estão sendo levadas em conta, muito menos parece interessar o diálogo e a cooperação.
A inteligência regional, que não é chamada nem ouvida, está sendo jogada no ralo por essa gente que aceitou um cargo, apenas por vias políticas, via de regra, não sabe exatamente o que fazer com ele. Sua idéia de cultura é a mais simplória possível. Eventos, eventos, eventos… Balcão e agenda.
A justificativa (que, na verdade, demonstra a falta de um plano municipal/regional de cultura) é sempre a mesma, falta de recursos. O que ainda para não estar entendido é que antes dos tais recursos, ou melhor, para que os tais recursos sejam contemplados no Orçamento das cidades é preciso que haja projetos, incluídos dentro de linhas claras e objetivas de políticas públicas.
Chega de personalismos, achismos, simulacros na gestão pública da cultura. Chega de torrar os caraminguás destinados à cultura em shows com “artistas” oriundos da chamada indústria cultural, contratados a peso de ouro, com a justificativa esfarrapada de que “é disso que o povo gosta”. O povo só não gosta do que não conhece e também, por outro lado, conhece coisas que são solenemente ignoradas e descartadas por essa gente que acha que sabe o que o povo gosta.
O povo continuará com suas manifestações culturais (populares, folclóricas, eruditas) apesar das administrações públicas. Mas cabe a quem tem voz o dever de alertar esses gestores sobre seus deveres no cumprimento de preceitos constitucionais e garantir a esse povo, não só o seu sagrado direito de se manifestar, como também a obrigação de apoiar essas manifestações.
Estou desanimada, é bem verdade (como tantos…). Estou desanimada, realmente desapontada em ver, a cada mudança de administração pública, apagada a memória de tudo quanto foi discutido e realizado nas gestões anteriores. Estou farta de ouvir gente que não se preocupa com indicadores, desconhece a cidade e suas pulsações, mas jamais desce do palanque, como se permanecesse em eterna campanha para eleição.
Sim, frustrada e desanimada, mas quero dizer, em alto e bom som, que, em absoluto, não vou jogar no lixo a massa crítica que acumulei em décadas de buscas de informação, leituras e conhecimento. Tampouco jogarei no lixo as horas que doei, sempre de forma voluntária, em prol do coletivo em reuniões, seminários, congressos, discussões de projetos. Ainda que “persona non grata”, continuarei a participar de todo e qualquer movimento que vise o a valorização da causa do livro, da leitura, da memória, da cultura, enfim.
Espero que essa inteligência regional a que me refiro, pessoas com quem convivi/convivo (e também as que não conheço pessoalmente, mas sei que existem), igualmente desapontadas, também não desistam nem se calem.
Dalila Teles Veras é poeta, cronista, ensaísta, participante ativa há três décadas da vida cultural da região e da Capital, idealizadora e fundadora da Livraria Alpharrabio, pólo cultural que completará 18 anos no próximo mês de fevereiro de 2010 e responsável por este blog e, naturalmente, pelas suas próprias opiniões.
DESDOBRAMENTOS: Além dos comentários aqui deixados pelos leitores, leia aqui texto do jornalista Daniel Lima, Alô, alô, inconformados!… que analisa e comenta este nosso texto