Aniversário(s)

30 de Agosto de 2008 @ 19:39 por Dalila

A fiel escudeira Luzia Maninha, lacônica, mas precisa e concreta, como sempre, envia-me um lembrete:

“Blog: 2 anos

agosto de 2006
caderno de registros: primeiras palavras

agosto de 2007
apropiações: 30 mil visitantes

agosto de 2008
inquietudes: 191 artigos publicados
intervenções: 362 comentários publicados”

E eu acrescentaria: até este momento (19h35 do dia 30 de agosto de 2008) recebemos 76.232 visitas.
Ainda que tenha assumido a tarefa com muitas dúvidas e reticências, devo confessar que não é má essa idéia de comunicação em tempo real com tanta gente, d´aquém e d´além mar. Devo dizer também que ainda insistimos na convocação para o encontro presencial, o toque, o olho-no-olho, a conversa jogada (?) fora, o café/chá a fumegar na xícara, as farpas, os elogios, os afagos, humanas trocas. Uma coisa, portanto, não exclui outra. Continuemos.

2anosBlog - 2anosBlog

esta bela foto de Luzia Maninha - a formiguinha a fecundar uma flor no jardim do Alpha - ilustra bem estas palavras e nos remete aos propósitos enunciados.

A propósito, o aniversário de hoje é duplo: 2 anos de blog e 4 meses de Filipe, meu neto que, por sinal, até já cortou a pele de um dedinho ao folhear um alfarrábio e sempre presta uma atenção nos diálogos aqui travados. Promete, o rapaz… (dtv)

Em tempo de Olimpíadas, um ping-pong poético (sem competição nem medalhas)

26 de Agosto de 2008 @ 23:37 por Dalila

Rubervan230808 029 - Rubervan230808 029

Manhã do último sábado, 23.08.08, no Alpharrabio. Quatro escritores, “um mineiro que mora em São Paulo, uma paulistana que circula pelo país, um andreense que mora em São Bernardo e um maranhense que agita as palavras desde o Piauí”, tentam responder à provocativa pergunta:

Por que e para quem Escrevo?

- “Não acredito que haja alguma condição pré-estabelecida para se escrever” (Mariana Ianelli)

- “Sempre quis escrever sobre algo que eu conhecia: literatura operária. Só encontrei três autores nesse gênero: Roniwalter Jatobá, Amado Fontes e Antonio Possidonio Sampaio. O meu propósito foi o de me inserir nessa corrente.” (Luiz Ruffato)

- Embora não pensando em atingir alguém, eu acredito que escrevo para mudar alguma coisa, sem esquecer o compromisso com a estética e a linguagem artística.” (Rubervam du Nascimento)

- “Não sei se vamos sair daqui com respostas. Escreve-se certamente para alguém. Escrevo “contra alguém” e tem esse sentido de mudar. Cada poema que se escreve é um caminho na direção de saber por que se escreve. A resposta é dada com cada poema e altera o sentido dessas questões; você não domina para que e para quem. A própria poesia é que te diz que você não tem poder sobre isso.” (Tarso de Melo)

- “A poesia surgiu justamente da tentativa de buscar pelo sentido das coisas” (Mariana )

- “Os primeiros livros que escrevi li para minha mãe analfabeta e ela entendeu tudo. Nenhum dos meus livros foi publicado sem que um leitor “comum” tivesse lido. Eu gostaria de escrever para essas pessoas.” (Ruffato)

Rubervan230808 052 - Rubervan230808 052

- “Participação é um dos objetivos de quem escreve. Mexer no coração das coisas. Uma ocasião, lendo poemas de meu livro Os Cavalos de Dom Ruffato, num acentamento de terras em Pedro II, no Piauí, um senhor veio me confessar que possuía um cavalo, mas que não gostava do nome dele (dada) e me perguntou se poderia dar a ele o nome de “Dom Ruffato”. Tentei argumentar que o cavalo dele já representava a palavra cavalo, mas não adiantou. ficou “Dom Ruffato” mesmo. (Rubervam)

- “Neste momento há pessoas escrevendo poemas na China, no Afeganistão, em Bagdá, em condições improváveis, sem se preocupar que uma bomba irá cair sobre suas cabeças. Isso já é uma mudança no mundo (pelo menos para aquela pessoa e para o escritor que é nome de cavalo. E de um cavalo engajado…” (Tarso)

- “é a vontade de “cartografar (…) Cada livro publicado é um passo que se dá. Em seqüência, eles formam um percurso. Talvez um percurso da esperança ao desespero, mas, enfim, o que vale é estar sempre caminhando, não importa exatamente a que destino” (Mariana)

- “Sou mais leitor de poesia do que de prosa (…) Entretanto, a grande maioria dos poetas brasileiros hoje não dialoga, fala para si mesma, perfeitos na técnica, só que não dizem absolutamente nada. A palavra chave é a subversão” (Ruffato)

- “O que move a minha poesia é a infância do meu lugar e dos homens que viveram comigo” (Rubervam)

- “O leitor de poesia gosta do que não compreende e compreende o que não gosta. As palavras não são dos poetas, são de quem lê. A gente conhece a poesia em cada poema (…) As armadilhas: escrever para se mostrar igual, para se pasteurizar. Se você nega isso, você melhora sua poesia e faz com que sua poesia melhore como um todo” (Tarso)

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Luiz Ruffato é autor, entre outros, de Eles eram muitos cavalos (Ed.Boitempo) com diversas edições, bem como da trilogia Inferno Provisório, da qual constam os romances Mamma, son Tanto Felice, O mundo Inimigo e Vista Parcial da Noite (Ed. Record). Mariana Ianelli, jovem jornalista, autora de vários livros de poesia, lançou recentemente Almádena. Antes, publicou Passagens, Duas Chagas e Fazer Silêncio, todos pela Ed. Iluminuras. Tarso de Melo, publicou A lapso, Carbono e, mais recentemente, Lugar Algum, todos pela Alpharrabio Edições. Planos de Fuga e outros poemas, pela Ed. Cosacnaify, Acaba de lançar Exames de rotina, pela Editora da Casa. Rubervam Du Nascimento, poeta nascido em São Luis do Maranhão, radicado em Teresina, autor de A Profissão dos Peixes (que tem várias edições, “sempre revistas e diminuídas”), publicou também, entre outros, Os Cavalos de Dom Ruffato , livro premiado pela Fundação de Cultura Cidade do Recife e veio a São Paulo lançar, na Bienal do Livro e no Alpha, o seu Espólio, vencedor do Prêmio Literário da Livraria Asabeça 2007.

Com a presença de vários outros poetas na roda, entre autógrafos e castanhas de cajú transportadas desde Teresina na bagagem do poeta e um vinhozinho ofertado pela casa, a conversa se estendeu para além da mesa de debates, continuou no almoço e se encerrou por volta de 17h00, com um abraço, na estação Imigrantes do metrô onde deixamos Rubervam rumo ao seu retorno solitário, necessária pausa para retomadas futuras.

Rubervan230808 099 - Rubervan230808 099

EM TEMPO: A propósito (e não por acaso), o Edmundo selecionou para amanhã, quarta-feira, às 15h00, dentro da programação do cineclube Alpharrabio, o filme Olympia (Parte 2), da genial alemã Leni Riefenstahl (96 min. / p&b, Alemanha, 1938), um documentário sobre os Jogos de Berlim. O corpo humano em movimento, como celebração de beleza. Não tenho dúvidas que a discussão será acalorada (a arte a serviço do nazismo ou a arte apenas criada durante o regime nazista? o que, convenhamos, são coisas diferentes). Vamos lá conferir). (dtv)

Falta de notícias por excesso de notícias

23 de Agosto de 2008 @ 22:35 por Dalila

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(platéia debate o filme Recife/Sevilha, logo após a exibição do mesmo)

A demora na postagem de novidades não se deve à falta de novidades, muito pelo contrário. Envolvidos que estamos com tantos e tão interessantes acontecimentos culturais, necessário se faz priorizar as escolhas: ou participo ou dou notícias.
Mas antes que o tempo corra ainda mais depressa e os acontecimentos se percam em seus velozes caminhos, vamos ao menos registrar que:

JoaoCabral160808 1 - JoaoCabral160808 1

(imagem do filme Recife/Sevilha, tomada durante a exibição no Alpha)

1) sábado passado, 16.08, João Cabral de Melo Neto passou por aqui, pelas artes de Bebeto Abrantes, no desconcentrante documentário Recife/Sevilha. Ali, um homem alquebrado, com dificuldades de fala, às vésperas da morte, poeta sempre, que apesar da debilidade física ainda era capaz de falar de suas paixões (ainda que mal disfarçadas), levantar-se e sugerir um gesto do toureiro (”geometria e precisão - o único espetáculo em que se morre de verdade”) ou bailarina andaluz (”dançar não é coisa aprendida, / mas o aprender-se cada dia.”), e evocar suas cidades, (a do nascer e a da adoção), Recife (”Hoje embarcou numa mulher. / Recifense, ele a chama barcaça”) e Sevilha (”só em Sevilha o corpo está / com todos os sentidos em riste,”) matéria de memória e poesia. João Cabral, o poeta tão bem definido pela bailarina depoente: “uma vida de sombras e uma obra de luz”.

2) O Fórum Permanente de Cultura representado nas sabatinas com os candidatos à Prefeitura de Santo André, promovidas pela ACISA (Associação Comercial e Industrial de Santo André) nas quais, via de regra, o novo é o anúncio da desconstrução e as aleluias das novas construções, sem se dizer com que serão recheadas. A repitação, a repitação, o discurso velho disfarçado de novo, a mudança para ficar tudo igual. Aqui e ali uma chaminha se acende e… acreditamos.

3) O mesmo Fórum, no último dia 20.08, lado a lado com os Secretários(as) e/ou diretores e assesores de cultura das 7 cidades, no Teatro Municipal de Mauá, durante o IV Seminário Integrado de Educação e Cultura, em reunião aberta do GT Cultura do Consórcio Intermunciipal de Prefeitos. Inédita caminhada rumo a uma efetiva ação integrada na regionalização da cultura das 7 cidades. Ali, os contrastes gritantes (Rio Grande da Serra, 50 mil habitantes, com dois funcionários para o setor de cultura, Ribeirão Pires com 4 e Santo André, quase 700 mil habitantes, mais de 400 funcionários, incluindo aí Turismo, Esportes e Lazer). Como bem o disse a Secretária de Santo André, Simone Zárate “somos tão iguais e tão diferentes”… Será preciso a cooperação dos maiores com os menores e o GT certamente se encarregará de provocar ações nesse sentido. Ainda tive a sorte de assistir, logo a seguir, à palestra do poeta Álvaro Alves de Faria sobre Solano Trindade. Tornei-me amiga do Álvaro quando ainda adolescentes e acompanho sua brilhante trajetória poética e jornalistíca de verdadeiro homem de letras que já se projetou para além das fronteiras brasileiras, com inúmeros livros publicados em Portugal e Espanha. Encontro de afinidades eletivas literárias e afeto. Com tudo isso, entretanto, perdi a oportunidade de ver/ouvir o mestre Antonio Candido na cerimônia de entrega do Prêmio Intelectual do Ano, o Juca Pato, que lhe foi outorgado pela UBE, na velha Faculdade do largo de São Francisco - Paciência… ainda não descobri a capacidade da onipresença.

4) No dia 21 e 22, esta escriba, a convite do poeta e professor José Marinho do Nascimento, ministrou a palestra “Da poeta e da poesia: minhas inquietações”, na Semana de Letras/2008, no Centro Universitário Fundação Santo André. Como as inquietações são muitas, acabaram caminhando pari-passo ao lado da própria poesia, encontrando eco nos jovens ali presentes. Sinal de que a poesia não está ainda banida do repertório dos jovens e o PCI (Partidos dos Cidadãos Indignados) está ativo também entre entre eles. Viva!

Hoje, sábado, pela manhã no Alpha, bem… hoje foi um capítulo à parte, muito especial, que merece ser detalhado com mais vagar (e o será), mas neste momento a velha carcaça da escriba, de tão cansada, recusa-se a teclar, assim como a mente, igualmente alquebrada, inicia a ratear. Ah! e ainda perdi, agora à tarde, a conversa entre as artistas Constança Lucas e Renata Gonçalves, lá na Graphias, em Sampa, onde elas comparecem com uma imperdível exposição de gravuras, desenhos e livros de artista (digo, asseguro e assino que as obras devem ser apreciadas, compradas, guardadas, porque estive lá na abertura, degustando - arte pura). (dtv)

Em memória de Ivonice Satie

13 de Agosto de 2008 @ 09:40 por Dalila

Franzina, irrequieta, falante, ansiosa, apaixonada e apaixonante. É assim que me lembro (e lembrarei) da bailarina Ivonice Satie, uma das mais conceituadas coreógrafas brasileiras, quando a convidei para participar de um debate no Alpharrabio, durante o memorável “Sete Anos Sete Cidades - Culturas”, um ciclo promovido pelo Alpha que durante 7 meses, dedicou um mês inteirinho a debater e mostrar a cultura de cada uma de nossas sete cidades.
Fundadora e dirigente da Cia. de Danças de Diadema, na qual atuou entre 1995 a 2003, Ivonice encontrava-se à época no auge de sua criatividade e reconhecimento público. Reproduzo abaixo (com a ajuda da arquivista mor Luzia Maninha) a transcrição de sua fala naquele debate, publicada no livro Alpharrabio 12 Anos - Uma história em curso , com a homenagem, o preito de saudade e profundo sentimento de perda, àquela que ontem, 12.08.08, empreendeu, aos 57 anos e em plena atividade, uma viagem para outro plano que, espero, também seja o da criação e da arte. Nós, por aqui, ficaremos um pouco mais pobres (dtv)

Debate: Diadema com a palavra (18 de setembro de 1999)

Ivonice - Ivonice

“Estamos voltando a falar de nós mesmos e como fico feliz em não falar mais em nosso colonialismo, mas em ser brasileiro, na nossa autenticidade e agora também na nossa região do ABC, onde me sinto adotada e queria falar um pouco sobre isso. Eu não estaria aqui se não tivesse sido tão bem recebida e se minhas palavras e minha arte não tivessem a força que tiveram dentro desta região. Então, acho que a região também colaborou para que houvesse uma reforma em minha conduta profissional. Hoje, aqui com vocês, vim a descobrir, depois de 40 anos fazendo dança, porque aprendi a dançar. Não foi só dançar, tinha uma história maior, só o ato de dançar, ter meu ego, o meu palco, público é muito pouco. Acho que esta região propiciou que a dança se fortalecesse dentro de mim e eu pudesse estar junto com esta região que é muito forte. Tem muita potência desenvolver dentro do departamento de cultura a minha área que é a dança. Começamos a ter um trabalho muito diferenciado com a Companhia de Danças, cuja preocupação também é voltada para a formação porque a gente não vê possibilidade, na nossa realidade de Brasil, de estar tendo o luxo de criar uma companhia que suba aos palcos só para mostrar como é bonita a dança, não deixar nada mais profundo e não abrir novas fronteiras com essa linguagem.

É só por isso que essa companhia existe, porque é voltada para uma formação interna do seu grupo, para que tenhamos uma produção local, que é uma das maiores experiências que já vivi na vida. Uma preocupação era ensinar à cidade como se produz e outra era levar toda a experiência interna da companhia para uma população. E por trabalhar assim com a comunidade, surgiram grupos que hoje têm vida própria. Com o maior orgulho, falamos das Mulheres de Eldorado, que são senhoras que saíram de casa e puderam explanar toda a emoção, a maravilha que é usar o corpo de várias formas e fórmulas. Surgiu também a Companhia Experimental do CCD, um grupo mais iniciado em dança, que tem feito programas lindíssimos, montagens que falam dessa adolescência que está um pouco solta e como trazê-la para fazer dança e, através dela, ser um exercício democrático e de cidadania. Hoje sinto que a Companhia de Dança faz um trabalho interno e externo com a população. Atendemos dentro do Departamento de Cultura crianças, adolescentes, adultos, terceira idade, com o Centro de Referência do Idoso, com mais de 80 idosos, atendemos a APAE com quase 80 crianças e conseguimos dar uma continuidade de trabalho, que acho muito importante dentro de uma sucessão administrativa e política. Passamos, nos Centros de Cultura dos bairros, quase 4 anos na sensibilização e, logicamente, muitas pessoas já sabem o que querem, tem gente que quer ser bailarino e não dá mais para segurar essas pessoas dentro de um centro uma vez por semana. Se começamos, temos que ensinar pelo menos para onde elas têm que ir e, com esses olhos, nasceu a Casa da Dança com um programa muito bem pensado, não idêntico, porque nada é bom o suficiente para ser fechado, mas fizemos um paralelo com o programa da Escola Municipal do Rio de Janeiro, com a Escola Municipal de Bailado de São Paulo, com a Escola da Fundação do Teatro Guaíra e montamos um programa que vai de 1 a 8 anos. Nesse período, a criança passa a ter aula de balé acadêmico clássico, logicamente voltado para uma sensibilização muito mais contemporânea. Queremos a dança clássica, mas não o comportamento do balé clássico, queremos o movimento sim, mas a sensibilidade e o objetivo muito mais contemporâneo aos dias de hoje e à nossa realidade de Brasil também. E hoje sentimos que podemos inserir a música, a dança, as artes plásticas, a banda, todos num único projeto. A gente só consegue misturar quando o individual está forte, não se faz o coletivo quando o individual não sabe para onde vai. Um tempo atrás, eu vinha querendo fazer isso, mas ainda não tínhamos isso muito forte, de cada um na sua linguagem. Fico muito feliz porque a dança de Diadema tem sido citada. Este ano, esteve em Joinville como convidada e foi manchete do Diário Santacatarinense: “Companhia de Dança de Diadema é exemplo em Joinville.”

E eu sinto que a gente já mexeu bastante na atuação sócio-cultural dessas pessoas, indiretamente começamos a mexer na economia. Percebi isso esse ano. A Companhia de Danças começa a trocar apoios, co-patrocínio, roupa por espetáculo, logomarca por almoços para uma turma que vem dançar. Começa a despertar uma coisa muito nova na região que é o empresário querendo apoiar, porque a logomarca dele vai estar em um projeto que muita gente vai assistir.

O Departamento de Cultura, junto com a Companhia de Danças, lançou, este ano, com calendário já para o ano que vem, a Mostra de Dança de Diadema e percebemos que tudo funciona mais: o pipoqueiro trabalha mais vezes na semana, o barzinho lá na frente, o único que tem lá, a dona fica doida, o Diário do Grande ABC que antes fazia chamadas dos espetáculos e sempre deu apoio muito grande à Companhia de Dança, sempre entendeu nossa proposta, hoje manda um repórter para assistir a estréia e depois fazer a crítica. Então, a cultura, de uma certa forma, está balançando a imprensa que antes só dava notícia.

O Diário do Grande ABC mandou um jornalista acompanhar o festival inteiro de Joinville, isto nunca aconteceu! Mas por quê? Porque alguém da região está lá e interessa saber qual a atuação da companhia dentro de um todo, pois o festival de Joinville também é internacional. E quando até o jornal se envolve desta forma não dá para fechar os olhos, porque a transformação é muito grande e já há algum tempo está acontecendo. Mas quando os de casa conseguem ver é porque o negócio está muito bom. ”

(in Alpharrabio 12 Anos: uma história em curso, 2004, Alpharrabio Edições)

Do baú: antecipando a homenagem a João Cabral

9 de Agosto de 2008 @ 22:21 por Dalila

(DES)ANDANDO SEVILHA
Atravesso a Ponte del Cachorro sobre o Rio Guadalquivir e sob a luz cortante do verão andaluz, El Arenal descortina-se como numa imagem virtual. Estou em Sevilha ou num poema de João Cabral? Guadalquivir e Capibaribe, uma “só maçonaria”?
“Verão, o centro de Sevilha/ se cobre de toldos de lona,/para que a aguda luz sevilha/seja mais amável nas pontas,”. Estes versos do pernambucosevilhano sempre me intrigaram. Como pode o centro de uma cidade cobrir-se de toldos de lona? E agora, olhando os toldos brancos que cobrem - literalmente - as ruas centrais de Sevilha, posso entender o sentido da sombra, quando “coado o sol cru”.
Caminho, protegida pela poesia de Cabral, como protegida estava a Sevilha moura no século XIII, atrás de sua Torre del Oro, que até hoje reina, altiva e soberana, à margem do Guadalquivir. “De Sevilha ninguém jamais disse tudo” e não serei eu a dizê-lo mas tento, seguindo o roteiro poético do maior poeta brasileiro vivo: “vi que Sevilha andava ou fazia andar quem a andasse”. Ando Sevilha como se um poema lesse.
Hospedo-me no charmoso Hotel Inglaterra, que este ano comemora 140 anos - o mais antigo hotel desta cidade antiga - e fico sabendo que também outro hóspede, muito mais antigo e ilustre do que eu, Hans Christian Andersen, também escreveu algumas páginas de puro encantamento acerca das laranjeiras carregadas de frutos que ocupam toda a extensão da Plaza Nueva, onde está situado o hotel. Falava ele também das “deliciosas” santas pintadas por Murillo que “eram… como para enamorar-se delas”, pedindo perdão aos devotos pelo pensamento de tal protestante.
Ainda no rastro do poeta, navego agora pela Calle Sierpes, “onde passear é navegação, / é andar-se, e sem destinação”. Não, não quero a cidade que “se mostra turística ao turista”. Assim como o poeta, interessa-me a cidade viva. Entro na Catedral sem, no entanto, lavar mãos e pés na fonte do Patio de los Naranjos, como o faziam os fiéis à época moura. Apenas contemplo esta prodigiosa obra de oito séculos e tento visualizar aqueles homens que deixaram, na imensidão destas naves góticas, a sua marca de eternidade para que turistas aprendizes como eu pudessem deixar o seu olhar de reconhecimento.
À noite, num tablao em Santa Cruz, finalmente percebo porque esta é uma cidade-mulher para o poeta Cabral, que se apaixonou por ela. As sensuais bailaoras de flamenco, na altivez de seus gestos e em delicados movimentos de mãos expressam a alma apaixonada da Andaluzia, tão bem contada / cantada por tantos (Lope de Vega e García Lorca, entre outros) antes do forasteiro Cabral chamá-la de “mulher cidade” (”a cidade criada do chão / que tem o clima que é mister / à mulher para ser mais mulher”).
Que saibamos “crescer sem matar-se” como Sevilha soube, é o que me ocorre desejar ao levantar a minha taça de gelado jerez.
dalila teles veras
Obs.: Esta crônica foi publicado no Diário do Grande ABC, na coluna Viaverbo em 30.7.97 e posteriomente publicada no livro A Vida Crônica (Alpharrabio Edições, 1999). (Re)publico-a aqui, antecipando a homenagem que faremos a João Cabral de Melo Neto, no próximo sábado, 16.8, às 10h00 no Alpha, com a projeção do filme Recife/Sevilha. Saiba mais, em: Alpharrabio

relato quase lírico de uma manhã de poesia

4 de Agosto de 2008 @ 22:26 por Dalila

A poesia foi o elo entrelaçando pessoas, manhã afora deste último sábado (02.08), num inverno que se recusa a acontecer. Daí que muita cerveja gelada foi necessária para aplacar as sedes e amaciar as gargantes secas, não só pela péssima qualidade do ar que acompanha este veranico julino em agosto entrante, mas sobretudo pelas intermináveis conversas. Os bons (e os maus) filhos à casa (quase sempre) tornam. No caso do Alpha, os maus (se é que o habitaram) jamais voltaram. Os bons, ainda que vôos mais altos os façam sobrevoar outros territórios, permanecem enraizados no solo do número 151 da Eduardo Monteiro. As chancelas mudam, os CEPs também, mas é ali que se dá o encontro físico, as trocas intelectuais e as rememórias.

08 Tarso e Danilo - 08 Tarso e Danilo

Mas eis-me aqui enveredando por um relato a beirar perigosamente o lirismo, tom nada “compatível” com a proposta estética dos poetas em foco (ainda assim, arrisco), quando, na verdade, o motivo seria apenas o do registro, este: os jovens poetas Tarso de Melo e Danilo Bueno, voltam à casa que publicou seus primeiros trabalhos, para o lançamento de seus mais recentes títulos: Exames de rotina, Tarso de Melo; Editora da Casa, Florianópolis/SC; e Corpo sucessivo, Danilo Bueno, Oficina Raquel, RJ. Na contramão dos conglomerados editoriais (as mega isso, mega aquilo), pequenas editoras que, assim como a Alpharrabio, não só apostam na qualidade do que publicam, mas também demonstram a paixão pelo livro como objeto gráfico que dialoga com o conteúdo.
Também na contramão da impessoalidade das megalojas, a Alpharrabio se mantém como espaço estabelecido de encontro onde não há vendedor nem cliente, mas personagens da mesma história.
Sem mais delongas, aí vai uma ínfima mostra da poesia de ambos para a apreciação e a eventual crítica dos leitores. Aos que desejarem ir além da degustação, recomendo que passem pela Livraria Alpharrabio (Rua Eduardo Monteiro, 151 – Jardim Bela Vista, Santo André, Fone 11- 4438-4358) ou solicitem pelo email: alpharrabio@alpharrabio.com.br, que remetemos os livros pelo correio para qualquer parte do Brasil (dtv).

ESTÁ ESCRITO

Calma. talvez mais: frieza. é o que o dia pede.
não se deve perguntar ao garçom porque traz
no braço, em letras tortas, verdes, ainda legíveis,
que “amor só de mãe”. Nenhum samurai, nenhum
indígena, nem mesmo o nome dos filhos, de alguém.
nem ao vendedor de balas e chicletes porque preferiu
ir tão rápido ao assunto – “tô na luta: R$ 1,00” –
se seus concorrentes preferem abordar a clientela
com pedidos de socorro durante a tarde vermelha,
votos para a família, flores, frases de auto-ajuda,
descrições da desgraça, nada disso: neles a faca
da conversa não ameaça. O rio seca onde começa.

Tarso de Melo, in Exames de rotina

câmera automática

depois de aberta a flor até o talo, até o grão da geometria
(sepultura de iluminuras) demonstra-se que até o fim a
flor é uma composição, um arranjo para o sempre

de seu avesso orvalhado – respiração e luz, ausência e
inesgotável cor

aromas e arabescos descarnam o ar (os vasos mínimos)
agua sugada da terra para água do bico da pétala

alento dos ventos coroa das chuvas: trêmula branca
amarela rósea – suspensas as dobras do horizonte a
brusca corola irrompe contra o céu recôndito

Danilo Bueno in Corpo sucessivo

Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC - VI

1 de Agosto de 2008 @ 22:11 por Dalila

Nesta última segunda-feira, 28.07.08, nas dependências do Alpha, mais uma reunião do Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC que, como se sabe, vem acontecendo com regularidade desde novembro de 2007.
Na pauta das informações, Dalila Teles Veras, a coordenadora, relatou o seguinte:
- Encaminhamentos do Grupo de Trabalho Cultura do Consórcio Intermunicipal do ABC, na última reunião do dia 16.07, na sede do Consórcio, em Santo André:
1) Mapa de Ações e Equipamentos do ABC, elaborado pelo GT Cultura, a ser enviado com brevidade pelo Consórcio para preenchimento pelas Secretarias de Cultura e/ou seus representantes. Prazo para devolução do Mapa preenchido pelas Prefeituras: 30 dias.
2) O grupo optou por centrar esforços no Censo Cultural Regional, projeto em fase de implantação junto ao Consórcio, bem como em um “balão de ensaio” inicial para a circulação de produtos/bens entre as sete cidades, considerando que todos os Secretários estão cientes da importância do Mapa de Ações e Equipamentos do ABC. (Simone Zárate, Secretária de Cultura de Santo André, deu o “pontapé” inicial, colocando à disposição das outras cidades uma lista com 12 itens de bens e produtos culturais de sua cidade para circulação regional. Espera-se que haja, a partir daí uma efetiva troca, rumo a ações permanentes de integração regional.)
3) Sugestão de melhoria na comunicação do Consórcio com os representantes das Secretarias de Cultura: encaminhamento de atas, informes, lembretes das reuniões, etc;
4) Solicitação de agendamento com o Sr. Márcio Chaves para discutir estratégias de captação de recursos do Censo Regional proposto pelo GT Cultura, bem como da eventual junção deste ao projeto de um Guia de Acervos Regionais já encaminhado pelos serviços de memória ao Consórcio, além das Ações Regionais (Obs.: essa reunião já foi realizada na última quarta-feira, dia 30, na qual foi decidida a convocação de uma reunião extraordinária do GT para o próximo dia 06.08.)
5) O GT sugeriu ainda a junção das agendas culturais das cidades na sede do Consórcio, configurando, assim, uma agenda regional de cultura, que poderia ser divulgada no portal do Consórcio e com links para as sete cidades (não só sites oficiais das Prefeituras, mas também iniciativas e organizações da sociedade civil).
- Sabatinas com os candidatos à Prefeitura de Santo André, promovidas pela ACISA, que ocorrerão a partir do dia 05.08, às 9 horas, na sede da OAB, em Santo André, abertos ao público. Por sorteio, serão estes os candidatos e as datas: 05.08.08 - Vanderlei Siraque; 12.08.08 - Raimundo Salles; 19.08.08 - Newton Brandão; 26.08.08 - Ricardo Alvarez; e 02.09.08 - Aidan Ravin. O nosso Fórum, juntamente com outras comissões, também estará representado nos debates e, inclusive, já colaborou enviando um texto com premissas mínimas e diretrizes de políticas públicas da cultura para ser juntado a um documento a ser entregue aos candidatos, do qual constam outras propostas de vários segmentos da sociedade local.
- Informações sobre as reuniões preparatórios à 2ª. Jornada ABCDMaior a ser realizada em novembro próximo. O propósito dessas reuniões é também recolher e realizar um conjunto de propostas a serem encaminhadas aos candidados às prefeituras da região, a serem respaldadas em plenária marcada para o dia 13 de setembro, na Coopervolks de Santo André. Um Grupo de Cultura, liderado por Júlio Mendonça e Neusa M. Pereira Borges, preparará um documento, tendo como base os princípios da Agenda 21 da Cultura, assegurando um compromisso dos governos para com o desenvolvimento cultural.
Após os informes, a palavra foi franqueada aos presentes (23 pessoas). Valter Carriel, Diretor de Cultura de Mauá, veio formular convite ao Fórum para se fazer representar no IV SIEC – Seminário Integrado de Educação e Cultura a ser realizado em Mauá de 19 a 24 de agosto. Após discussão, surgiu a idéia, acatada por todos, de que levássemos o próprio GT de Cultura do Consórcio Intermunicipal para uma reunião, quando falaríamos sobre a constituição recente desse GT e dos projetos propostos, abrindo para uma conversa com os presentes. A reunião-encontro ficou acertada para 20.08, às 17h00, no Teatro Municipal de Mauá e será aberta por um recital a cargo do ator Carlos Lotto com poemas de poetas das sete cidades. Acreditamos, assim, que esta seja mais uma boa oportunidade para disseminarmos nossas idéias e colhermos outras para o nosso projeto de ações integradas regionais.
O Fórum recebeu também a visita do vereador Cláudio Malatesta que, no uso da palavra, disse que aceitou indicação de munícipes e que veio para ouvir e inteirar-se do que aqui ocorre, dada a repercussão que o Fórum vem obtendo.
Seguiram-se várias discussões e depoimentos, avaliando as atuais gestões públicas da cultura em várias cidades da região. Além da coordenadora e dos visitantes Valter Carriel e Cláudio Malatesta, fizeram uso da palavra Milton Andrade, Júlio Mendonça, Wal Volk, Claudete Sarapu, Júlio Mendonça, Neusa Borges, Damara Bianconi, Celso Horta, Wagner Kuroiwa, Carlos Rizzo e Carlos Lotto. Mais uma vez, a reunião deu mostras de reafirmar o propósito inicial do Fórum, que é o de construir um processo participativo e crítico das políticas públicas da cultura na região do Grande ABC, bem como integrar ações, colaborando, assim, para reorganizar a própria comunidade cultural.
Próxima reunião (sempre na última segunda-feira do mês): 25.08.08 às 19h (em ponto) na sede da livraria Alpharrabio (Rua Eduardo Monteiro, 151 – Jardim Bela Vista – Santo André, Fone 4438-4358). Todos são bem vindos. Envie sugestões de pauta, participe (como artista, produtor de cultura, intelectual ou simplesmente -e não menos importante- como fruidor de cultura.
Dalila Teles Veras

07 Forum280708 - 07 Forum280708

O silêncio e a leitura

24 de Julho de 2008 @ 21:30 por Dalila

Nem sempre foi assim: alguém sentado, em silêncio, percorre os olhos pelas páginas de um livro, e vai virando as páginas, como se o resto do mundo não existisse.
Na antigüidade, a leitura era feita em voz alta. Todas as palavras escritas destinavam-se a ser pronunciadas em voz alta, pois a escrita sequer separava palavras, não distinguia maiúsculas e minúsculas e nem pontuação. O leitor (privilégio de poucos), alguém de grande prática, encarregava-se do ritmo da leitura. Os próprios copistas (pessoas que copiavam manuscritos, antes da invenção da imprensa), ao realizarem seu trabalho, faziam-no em voz alta. A leitura era sempre um ato público.
Longo foi o caminho até a leitura na intimidade, em silêncio, viagem sem testemunhas. Proust detestava ser interrompido em sua leitura, o fato de responder um simples “não, obrigado”, era como forçá-lo a parar completamente e “trazer de muito longe a própria voz, que, escondida, atrás dos lábios, repetia muda, e rápido, todas as palavras lidas pelos olhos”. Dizia ele: “Os livros verdadeiros não deveriam nascer da luz brilhante do dia e de conversas amigáveis, mas da sombra e do silêncio”.
O silêncio na leitura acaba por ser fundador, profundamente revelador e significante de uma nova história, aquela que, em silêncio, irá se (trans)formando na imaginação do leitor. “O silêncio não é o vazio, o sem-sentido; ao contrário, ele é o indício de uma totalidade significativa.” (“As Formas do Silêncio – no movimento dos sentidos”, de Eni Puccinelli Orlandi, Editora da Unicamp). Claro está que o silêncio, na leitura, não é apenas ausência de palavras, antes, a significação daquilo que há entre elas e por trás delas. Um silêncio que não é mutismo, fechado aos acontecimentos e às paixões, mas o silêncio de, ao ver/ouvir o outro, ouvir a si próprio e (por que não?) ao universo cósmico.
Incoerente, como só pode mesmo ser o ser humano, o homem conquistou o silêncio para, hoje, na insanidade em que se transformou a nossa vida urbana, não ter mais direito a ele. Os níveis de ruído produzido pela nossa sociedade chegaram ao intolerável, sem que a maioria das pessoas se dê conta disso. Criou-se uma necessidade absurda que obriga as pessoas a ouvirem música ou uma infinidade de outros sons, em praticamente, todas as situações (ônibus, trens, salas de espera de escritórios e consultório médicos, sem contar os da vizinhança, não preocupada com os altíssimos decibéis). Até os cultos religiosos, antes revestidos de silêncio propício à meditação, transformaram-se em espetáculos estridentes (catarse, medo?).
O certo é que, sem que ninguém saiba ao certo por que espécie de lei está regida essa nova ordem social, os cidadãos estão proibidos de permanecer um momento sequer com os próprios pensamentos, o que é realmente uma irreparável perda.
Foi a partir desta crônica, publicada no Papo T, alternativo do amigo João Tessarini, e de outra, O direito ao silêncio, publicada no Diário do Grande ABC, que passei a pesquisar o tema do silêncio. Dentre os livros que li nessa fase, além do já citado e que deu origem à crônica, um dos que mais me marcou foi O Silêncio Primordial, do argentino Santiago Kovadloff. A plaquete Solilóquios, que publiquei numa tiragem reduzida e fora do comércio, reúne poemas reflexivos sobre este fascinante tema. (dtv)

Silencio - Silencio

o silêncio e a leitura no Alpha (foto luzia maninha)

Anotações de leitura

18 de Julho de 2008 @ 13:33 por Dalila

“Tragicamente, o homem está perdendo o diálogo com os demais e o reconhecimento do mundo que o rodeia; quando é nele que se dá o encontro, a possibilidade do amor, os gestos supremos da vida. (…) “É urgente reconhecermos os espaços de encontro que podem nos salvar de ser uma multidão massificada, assistindo isoladamente à televisão” (….) “A coragem nos falta quando estamos sozinhos e isolados, mas não quando mergulhamos na realidade dos outros de tal maneira que é impossível voltar atrás (…) O essencial da vida é a fidelidade ao que acreditamos ser nosso destino, que se revela nos momentos decisivos”. Estre trechos são do livro A Resistência, publicado recentemente no Brasil (Cia. Da Letras), do escritor argentino Ernesto Sabato.
Esse livro me comoveu por vários motivos, não só pela convicção humanista e inabalável confiança no ser humano, aqui reafirmadas, mas também por sua desolada constatação do perigo que essa humanidade hoje enfrenta, ou seja, deixar de ser humana.
Sabato vale-se de uma linguagem quase confessional, na forma de seis cartas dirigidas ao leitor, com travos de amargura, eu diria, para falar de sua perplexidade diante destes complexos tempos, por certo de difícil aceitação para quem atravessou um século (o escritor completará 100 anos em 2011), mas sempre coerente com o seu espírito inquieto e combativo. Um escritor, que optou por um papel que vai além do papel.
Apesar de sua literatura refletir essas convicções éticas e participativas, Sabato soube evitar que sua literatura não estivesse exatamente a serviço de nenhuma causa, muito menos de nenhuma ideologia, porque aí não estaria fazendo literatura, mas panfleto, armadilha em que muito mergulharam, buraco do qual jamais conseguiram sair. Além das idéias, a sua obra tem o compromisso com a forma, com a linguagem, com a arte literária. O escritor, sim, tem o compromisso com essas questões da cidadania, da participação. A isto posso chamar de “identificação”. Sim, isso vem de encontro à nossa utopia, a de manter e de reconhecer “os espaços de encontro”, “gestos supremos da vida”. Bem haja Maestro Sabato!. (dtv)

Do arquivo

13 de Julho de 2008 @ 18:34 por Dalila

Retirado do meu baú de inéditos, um velho poema (é de 1994) apropriado ao atual momento, com a melancólica constatação de que nada mudou ou quando eventualmente mudou mudou para ficar igual.

Campanha Política

Doar olhando a quem
eis o lema
:
estender a direita
receber com a esquerda

Jogo de amarelinha
sem purgatório
(o poder é o limite)

Na ciranda hipócrita
bodes fantasmas
expiam a culpa

dalila teles veras