Na última quinta-feira, 07 de maio, o Alpharrabio em festa recebeu uma trupe de artistas, gente do mais alto entusiasmo que fez do lançamento do livro Outros Silêncios, de José Geraldo Neres (Editora Escrituras, 2009),
verdadeiro happening cultural e, sobretudo, de trocas artísticas e afetivas.
Kiusam de Oliveira dançou africanamente um poema lido/cantado por Carlos Lotto. Poemas lidos, cantados, dançados e interpretados, a palavra poética des-do-bra-da. Rádi Oliveira, (com seu filho de apenas um mês ao colo – ponto alto – cantou Castro Alves, à capela)
Dalila Teles Veras, apresentou o livro (e o poeta) com o texto que vai abaixo:
Anotações de Leitura de Outros Silêncios
Certa feita, numa crônica publicada em jornal que anunciava uma poeta nascente, escrevi o seguinte:
“Sou do tempo das parteiras. Nasci amparada por uma delas, chamada às pressas, alta madrugada. Talvez por esse estigma, parteira me tornei. Ao invés de bebês, tenho assistido nascimentos de poetas e livros.
Faz parte da minha personalidade comungar com mais gentes idéias e poesia. Agrada-me assistir ao desenrolar de projetos, acompanhar trabalhos em progresso.”
Valho-me, aqui, desta metáfora da parteira, como uma tentativa de escapar da responsabilidade da tarefa que me foi solicitada, ou seja, a de apresentar criticamente este livro, Outros Silêncios. A tentativa de fuga, no entanto, não representa qualquer espécie de má vontade para com o livro e muito menos para com o poeta, mas se dá pela total incapacidade de exercer algo que não é meu métier: a crítica literária. Assim, desde já, peço desculpas, pois receio não poder cumprir o que de mim é esperado.
Assim, deixando claro aqui o meu papel, o de poeta municipal que ainda procura a chave e não aprendeu a tirar ouro do nariz, passo a exercer a tarefa:
Inicialmente, quero dizer que tenho a grata satisfação de anunciar o nascimento de mais um poeta. Cronologicamente, entretanto, José Geraldo Neres, começa a nascer muito antes deste Outros Silêncios, acabado de vir à luz, embalado neste belo projeto gráfico da Editora Escrituras e que, hoje, me cabe a honra de apresentar.
O poeta que neste livro se revela, começou a ser forjado há pelo menos uma década. Quando por aqui aportou, o jovem adepto das novas tecnologias da comunicação, que à época engatinhavam e estavam longe de representarem o fenômeno que hoje representam, vinha com uma novidade: ao invés de um calhamaço de papel, como a esmagadora maioria de jovens autores à procura de editora, trazia seus originais num disquete, ou melhor, o disquete já era um livro, um livro virtual que contou com lançamento presencial, inclusive.
O então poeta cibernético, que intuitivamente também testava o produto de sua criação na rede de computadores, humildemente aceitou sugestões e críticas e reconheceu que a ousadia daquela inovação tecnológica, ou seja, o ato de “publicar” versos em um disquete ainda não lhe conferia o estatuto de poeta. Reconheceu e foi à luta. Participou de oficinas, se informou, se relacionou, conviveu e, sobretudo, leu e assimilou aquilo que leu. Foi para a cidade de Diadema e fundou, com outros companheiros das oficinas que ali eram ministradas, o Grupo Palavreiros, de reconhecidos méritos e intensa atuação (“O tempo / dilata as cores / da cegueira / acende suas dúvidas / ao dobrar a esquina”). E assim foi se desenvolvendo: de oficinando a oficineiro, de aprendiz a poeta.
A história deste livro é a história deste poeta. Este livro é testemunho e reúne em seu conteúdo a trajetória poética de José Geraldo Neres, sua luta vã com a palavra, nessa guerra sem testemunhas que é a formação de um escritor, a luta silenciosa, o suor diante da inspiração (“No quarto escuro / um poeta / e sempre este abismo / a rondar as sombras do papel”)..
José Geraldo soube esperar. Pertence àquela linhagem de poetas que não nasceram prontos (quantos nasceram?), mas se fazem poetas. Ao que parece, seguiu à risca um conselho de um dos seus mentores, Octavio Paz: “o poético não é algo dado, que se acha no homem desde o nascimento, mas algo que o homem faz e que reciprocamente faz o homem. O poético é uma possibilidade, não uma categoria a priori nem uma faculdade inata. É uma possibilidade que nós mesmos criamos em nós”.
Os prêmios que lhe foram atribuídos e a receptividade aos seus poemas publicados esparsamente em obras coletivas e revistas, atestam que a hora era esta, o poeta havia criado aquela possibilidade a que se refere Paz e estava pronto para o livro, e também para enfrentar, agora, a própria crítica.
José Geraldo, de forma consciente, a partir de um dado momento de sua trajetória, filiou-se a uma corrente poética que faz uso da estética da linguagem surrealista. Isso é muito evidente, não só pelos procedimentos adotados, mas também pela intertextualidade que dialoga com mestres dessa linhagem poética.
Sabedor, entretanto, de que Escolas não há mais, o poeta soube extrair aquilo que lhe interessava também de outras correntes além do surrealismo, como, por exemplo, construir um poema longo utilizando recursos estéticos próprios do poema breve.
É justamente quando recorre a esses procedimentos que “acontece a subterrânea, discreta transição interior das palavras, do sentido velho ao sentido novo”, para lembrar José Guilherme Merquior. No nosso modo de entender, é nesse tipo de poema, onde sua caudalosa imagética, contida pela forma, ganha mais força e expressividade, como no capítulo que abre o livro, DESERTO DOS PÁSSAROS ÚMIDOS, na verdade um longo poema (como aliás, parecer ser o livro como um todo), divido em vários poemas, dos quais cito aqui o primeiro deles:
I
o tempo
navega
além do rio
o tempo
prisioneiro
o tempo
além da vontade da água
porta parada
homem oco e seus relógios
nome deitado cego
escondido nas raízes da água
enterra sua sombra
nos galhos de um arco-íris
parado na porta
o tempo
Por mais imaginários que possam parecer seus poemas, é do real que partem: dúvidas, de ordem prática (“o que faço com o poeta depois de escrito o poema?”); de ordem metafísica (“quantas pedras habitam o abismo?”); da memória (“o corpo da infância / - roupas guardas - / lembranças no armário”); da amada (“Ana / me carrega”; do cotidiano (“A CIDADE / anúncio percorrido por sapatos apertados”). Assim, real e imaginário convivem em seus poemas, com também convive o delírio dos sentidos (A QUARTA LÍNGUA DA LUA / passa pelo corpo / & a primavera / soluça espectros de pétalas / sua semente”), que habilmente o poeta vai transformando em poesia.
Neres, neste seu livro de estréia, sabedor de que não há mais possibilidades de rupturas, incorpora elementos essenciais da modernidade ao seu fazer poético e tenta busca sua própria voz, dando novos sentidos a velhos sentidos.
O título daquele disquete-livro, Muitos caminhos, foi profético: o poeta escolheu o seu e, como diria o grande poeta espanhol, vai fazendo o caminho ao andar.
Dalila Teles Veras - Livraria Alpharrabio 07.05.09

Enquando isso, lá fora, na entrada da livraria, EMOL, o artista/grafiteiro, pintava um muro integrando-o ao jardim, deixando sua marca para que os passantes da Rua Eduardo Monteiro possam aprecia-la e saber que a arte passou por ali (e ficou).