Personagem

30 de Junho de 2009 @ 22:59 por Dalila

Tardinha, escurecendo cedo. No lusco-fusco, uma mulher desgrenhada, roupas de cor indefinível, corpo coberto de sujeita, senta-se à soleira da livraria, cabeça entre as mãos, olha o vazio do chão (lembrava a personagem do filme Bestseller, roteiro de Adélia Nicoletti e direção de Alex Moletta, ambientado exatamente ali).
Repentinamente, voltando-se para dentro, grita: não precisa ter medo, não sou bandida! Tem aí o Pequeno Príncipe? Eu adoro o pequeno príncipe! Gira a cabeça à esquerda e depara-se com um pôster de Carlos Drummond de Andrade. Aponta para a fotografia e pergunta: esse aí é o Mário de Andrade?
A moradora de rua perdeu a casa, confundiu os rostos dos escritores, mas, diferentemente de muitos com casa, comida e roupa lavada, guardou na memória fragmentos de histórias, nomes, palavras… não perdeu a capacidade de se encantar com a literatura. (dtv)

Cidades, Sete

30 de Junho de 2009 @ 00:18 por Dalila

Silvia1 - Silvia1

Para Sílvia Helena Passarelli (extensivo aos seus colegas de investigação científica), esta memória poética de sua poética palestra, na manhã do último sábado no Alpha, plena de cumplicidades (dalila teles veras):

Cidades, sete

Artérias que separam e (re)unem
rappers ao telefone alardeiam poesia
palavra que lê a cidade-labirinto
versos a cantar os passos
pés, ágeis
a dançar em marcha-a-ré
contornando viadutos
à busca de caminhos (outros caminhos)
Versos a cantar os passos em volta
como já disse o poeta
passos que vão e voltam
à busca da gênese da própria formação
Pés que desviam do lixo e pisam em tapetes
correm dos automóveis
humanos seres a pisar
rios invisíveis
a (re)conhecer a cidade
Cidades
cantos obscuros fotografados,
desenhados, descritos, anotados:
aposentados jogam dominó na praça
indiferentes e alheios, matam o tempo que os mata
abstração dos ruídos urbanos, música de fundo
dominó que (re)liga, liga
bordas de um campo que já não há
o trem que já pouco transporta
trilhos que apodrecem e lembram
dominó permanentemente embaralhado
o centro com as marcas do subúrbio
Cidades
pelas lentes da arte redesenhadas
arte-móvel que vê e anota:
o churrasquinho grego na estação
os homens-placas - pixação ambulante
as saídas-entradas
os becos sem saída
as vilas onde já ninguém habita
catracas por onde a vida passa
E trava
E segue

Silvia02 - Silvia02

A paisagem cultural do grande ABC por quem dela entende

24 de Junho de 2009 @ 22:31 por Dalila

O ABC é ainda um lugar de passagem? Qual a nossa paisagem cultural? Subúrbio de São Paulo? Periferia? Metrópole(s)? Quantos de nós já pararam para olhar e refletir esses possíveis marcos identitários do lugar onde vivemos e/ou trabalhamos? Vamos ouvir quem entende do assunto. Neste sábado, 27.06, no Alpharrabio, às 10h30, a arquiteta e professora Sílvia Helena Passarelli brindará os presentes relatando o resultado de uma interessante pesquisa desenvolvida por uma equipe de estudiosos pesquisadores (ela incluída) ligada à Universidade Municipal de São Caetano do Sul, que elaborou metodologia de percepção da paisagem e identificação do patrimônio cultural das áreas centrais das sete cidades do ABC, envolvendo as questões ancoradas no ser-habitante e no fazer-artístico. O título do trabalho: 7Cidades: uma leitura perceptiva do Grande ABC.
Posso assegurar que valerá a pena levantar um pouco mais cedo e perder/ganhar a manhã de sábado. A entrada é franca. Então até lá. Dalila Teles Veras

Nesta quarta, 24, temos cineclube no Alpha

22 de Junho de 2009 @ 16:36 por Dalila

Uma alternativa inteligente aos apreciadores do bom cinema e que, via de regra, são “agraciados” com os horrores dos blockboosters oferecidos ao público na região do Grande ABC:

Cineclube Alpharrabio

Nesta quarta-feira, 24.06, às 14h30, a sessão gira em torno de um grande cineasta, Krzysztof Kieslowski, e de um grande filme A CICATRIZ (Blizna, Polônia, 1976, 102 min)

“A Cicatriz pertence à história da Polônia nos anos 1970, quando o país vivia sob o domínio socialista. O antiherói do filme é Bednarz, diretor de uma empresa, que é escolhido para coordenar a construção de um complexo químico numa pequena cidade, onde já viveu com sua família. Lá, sua mulher foi ativista política. A cidade não lhe traz boas lembranças. Entratando, ele se vê forçado a voltar à região de sua juventude.”

Todos estão convidados, a entrada é franca. Sob a batuta de Edmundo Epífanio Dias, vamos debater e refletir sobre o cinema, enquanto arte. (dtv)

Conversa de livraria

20 de Junho de 2009 @ 22:56 por Dalila

Ontem, uma visita gratificante no Alpha: Milton Andrade, escudado pelo sempre companheiro do grupo da Pedra, José Armando Pereira da Silva, passaram no Alpha, as cabeças repletas de projetos, plenos de criatividade, verdadeiros meninos, ainda que “entrados em anos”. Zé Armando, animado, após concluir 3 livros no ano passado, dos quais já falamos aqui, anda às voltas com a pesquisa sobre o editor Massao Ohno, para um livro já com todo o plano de obra em andamento. A alegria maior ficou por conta de ver Milton inteiramente recuperado de uma longa enfermidade que o “nocauteou” e o deixou inativo por alguns meses, e que agora volta para o convívio dos amigos, o trabalho e os planos criativos. Acaba de gravar alguns capítulos de uma mini-série para a TV Globo e prossegue em suas pesquisas sobre o ex-Presidente americano Abraham Linconl para um roteiro teatral. Viva os meninos entrados em anos e os seus projetos entusiasmados de vida! (dtv)

Choro didático e outras bossas

12 de Junho de 2009 @ 10:26 por Dalila

Enquanto a titular deste blog andou a navegar por mares já bastante navegados, as atividades andaram (e bem) por aqui, apesar da costumeira discrição das responsáveis pelo seu bom andamento.

05 Choro150509 2 - 05 Choro150509 2

Música da mais alta qualidade, o choro didático, liderado pelo mestre Edu Moreno foi, ao que se sabe o momento alto da programação de maio.

05 Choro150509 1 - 05 Choro150509 1

O cineclube, sempre sobre a coordenação do prof. Edmundo Epifanio (coadjuvado pela contra-regra geral, Luzia Maninha), também manteve o alto nível e o bom gosto na escolha dos filmes. Para este mês, o diretor escolhido é o polonês Krzysztof Kieslowski (aquele da trilogia da cores, lembram?) e o primeiro filme, A Fraternidade é Vermelha, será debatido nesta quarta, dia 17, às 14h30. A não perder!

A última postagem, como bem foi conferida pelas centenas de visitantes (que, diga-se, continuam generosamente a nos prestigiar, apesar da vagabundagem da blogueira em atualizar esta página e sublinhe-se que não é por falta de assunto!), atesta que a titularidade bem que já poderia ser transferida com sucesso, em especial, pela sensibilidade e competência demonstrada pela substituta de plantão, LM.

A programação de junho já está em andamento (consulte em www.alpharrabio.com.br) e dela daremos notícia. (dtv)

Precisão

10 de Junho de 2009 @ 21:42 por Maninha

sem precisão
flor de maio

06 Alpha0100609B 1 - 06 Alpha0100609B 1

com precisão
nossas atividades
juninas

Mario Benedetti (1920/2009)

17 de Maio de 2009 @ 21:31 por Maninha

ESE GRAN SIMULACRO
Mario Benedetti

Cada vez que nos dan clases de amnesia
como si nunca hubieran existido
los combustibles ojos del alma
o los labios de la pena huérfana
cada vez que nos dan clases de amnesia
y nos conminan a borrar
la ebriedad del sufrimiento
me convenzo de que mi región
no es la farándula de otros

en mi región hay calvarios de ausencia
muñones de porvenir / arrabales de duelo
pero también candores de mosqueta
pianos que arrancan lágrimas
cadáveres que miran aún desde sus huertos
nostalgias inmóviles en um pozo de otoño
sentimientos insoportablemente actuales
que se niegan a morir allá en lo oscuro

el olvido está tan lleno de memoria
que a veces no caben las remembranzas
y hay que tirar rencores por la borda
en el fondo el olvido es un gran simulacro
nadie sabe ni puede / aunque quiera / olvidar
un gran simulacro repleto de fantasmas
esos romeros que peregrinan por el olvido
como si fuese el camino de santiago

el día o la noche en que el olvido estalle
salte en pedazos o crepite /
los recuerdos atroces y los de maravilla
quebrarán los barrotes de fuego
arrastrarán por fin la verdad por el mundo
y esa verdad será que no hay olvido

ESSE GRANDE SIMULACRO

Cada vez que nos dão lições de amnésia
como se nunca houvesse existido
os ardentes olhos da alma
ou os lábios da pena órfã
cada vez que nos dão aulas de amnésia
e nos obrigam a apagar
a embriaguez do sofrimento
convenço-me de que meu território
não é a ribalta de outros

Em meu território há martírios de ausência
resíduos de sucessos / subúrbios enlutados
mas também singelezas de rosa
pianos que arrancam lágrimas
cadáveres que ainda olham de seus hortos
lembranças imóveis em um poço de colheitas
sentimentos insuportavelmente atuais
que se negam a morrer no escuro

O esquecimento está tão cheio de memória
que às vezes não cabem as lembranças
e rancores precisam ser jogados pela borda
no fundo o esquecimento é um grande simulacro
ninguém sabe nem pode / ainda que queira / esquecer
um grande simulacro abarrotado de fantasmas
esses romeiros que peregrinam pelo esquecimento
como se fosse o caminho de santiago

o dia ou a noite em que o esquecimento estale
exploda em pedaços ou crepite /
as lembranças atrozes e as de maravilhamento
quebrarão as trancas de fogo
arrastarão afinal a verdade pelo mundo
e essa verdade será a de que não há esquecimento
 
 

AH LAS PRIMICIAS

Ah las primicias / cómo envejecieron
cómo el azar se convirtió en castigo
cómo el futuro se vació de humildes
cómo los premios cosecharon premios
cómo desamoraron los amores
cómo la hazaña terminó en sospecha
e los oráculos enmudecieron

todo se hunde en la niebla del olvido
pero cuando la niebla se despeja
el olvido está lleno de memoria
 

AH AS PRIMÍCIAS

Ah as primícias / como envelheceram
como o azar se converteu em castigo
como o futuro se esvaziou de pobres
como os prêmios colheram prêmios
como desamoraram os amores
como a façanha terminou em suspeita
e os oráculos emudeceram

tudo afunda na névoa do esquecimento
porém quando essa névoa se dissipa
o esquecimento está cheio de memória

tradução: dalila teles veras 

(poemas traduzidos publicados na revista literária A Cigarra no. 35, junho 2000, Santo André, SP) 

Outros Silêncios e muitas vozes

12 de Maio de 2009 @ 11:50 por Dalila

Na última quinta-feira, 07 de maio, o Alpharrabio em festa recebeu uma trupe de artistas, gente do mais alto entusiasmo que fez do lançamento do livro Outros Silêncios, de José Geraldo Neres (Editora Escrituras, 2009),

JGeraldo 04 - JGeraldo 04

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verdadeiro happening cultural e, sobretudo, de trocas artísticas e afetivas.

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Kiusam de Oliveira dançou africanamente um poema lido/cantado por Carlos Lotto. Poemas lidos, cantados, dançados e interpretados, a palavra poética des-do-bra-da. Rádi Oliveira, (com seu filho de apenas um mês ao colo – ponto alto – cantou Castro Alves, à capela)

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Dalila Teles Veras, apresentou o livro (e o poeta) com o texto que vai abaixo:
Anotações de Leitura de Outros Silêncios

JGeraldo 01 - JGeraldo 01

Certa feita, numa crônica publicada em jornal que anunciava uma poeta nascente, escrevi o seguinte:

“Sou do tempo das parteiras. Nasci amparada por uma delas, chamada às pressas, alta madrugada. Talvez por esse estigma, parteira me tornei. Ao invés de bebês, tenho assistido nascimentos de poetas e livros.
Faz parte da minha personalidade comungar com mais gentes idéias e poesia. Agrada-me assistir ao desenrolar de projetos, acompanhar trabalhos em progresso.”

Valho-me, aqui, desta metáfora da parteira, como uma tentativa de escapar da responsabilidade da tarefa que me foi solicitada, ou seja, a de apresentar criticamente este livro, Outros Silêncios. A tentativa de fuga, no entanto, não representa qualquer espécie de má vontade para com o livro e muito menos para com o poeta, mas se dá pela total incapacidade de exercer algo que não é meu métier: a crítica literária. Assim, desde já, peço desculpas, pois receio não poder cumprir o que de mim é esperado.
Assim, deixando claro aqui o meu papel, o de poeta municipal que ainda procura a chave e não aprendeu a tirar ouro do nariz, passo a exercer a tarefa:
Inicialmente, quero dizer que tenho a grata satisfação de anunciar o nascimento de mais um poeta. Cronologicamente, entretanto, José Geraldo Neres, começa a nascer muito antes deste Outros Silêncios, acabado de vir à luz, embalado neste belo projeto gráfico da Editora Escrituras e que, hoje, me cabe a honra de apresentar.
O poeta que neste livro se revela, começou a ser forjado há pelo menos uma década. Quando por aqui aportou, o jovem adepto das novas tecnologias da comunicação, que à época engatinhavam e estavam longe de representarem o fenômeno que hoje representam, vinha com uma novidade: ao invés de um calhamaço de papel, como a esmagadora maioria de jovens autores à procura de editora, trazia seus originais num disquete, ou melhor, o disquete já era um livro, um livro virtual que contou com lançamento presencial, inclusive.
O então poeta cibernético, que intuitivamente também testava o produto de sua criação na rede de computadores, humildemente aceitou sugestões e críticas e reconheceu que a ousadia daquela inovação tecnológica, ou seja, o ato de “publicar” versos em um disquete ainda não lhe conferia o estatuto de poeta. Reconheceu e foi à luta. Participou de oficinas, se informou, se relacionou, conviveu e, sobretudo, leu e assimilou aquilo que leu. Foi para a cidade de Diadema e fundou, com outros companheiros das oficinas que ali eram ministradas, o Grupo Palavreiros, de reconhecidos méritos e intensa atuação (“O tempo / dilata as cores / da cegueira / acende suas dúvidas / ao dobrar a esquina”). E assim foi se desenvolvendo: de oficinando a oficineiro, de aprendiz a poeta.
A história deste livro é a história deste poeta. Este livro é testemunho e reúne em seu conteúdo a trajetória poética de José Geraldo Neres, sua luta vã com a palavra, nessa guerra sem testemunhas que é a formação de um escritor, a luta silenciosa, o suor diante da inspiração (“No quarto escuro / um poeta / e sempre este abismo / a rondar as sombras do papel”)..
José Geraldo soube esperar. Pertence àquela linhagem de poetas que não nasceram prontos (quantos nasceram?), mas se fazem poetas. Ao que parece, seguiu à risca um conselho de um dos seus mentores, Octavio Paz: “o poético não é algo dado, que se acha no homem desde o nascimento, mas algo que o homem faz e que reciprocamente faz o homem. O poético é uma possibilidade, não uma categoria a priori nem uma faculdade inata. É uma possibilidade que nós mesmos criamos em nós”.
Os prêmios que lhe foram atribuídos e a receptividade aos seus poemas publicados esparsamente em obras coletivas e revistas, atestam que a hora era esta, o poeta havia criado aquela possibilidade a que se refere Paz e estava pronto para o livro, e também para enfrentar, agora, a própria crítica.
José Geraldo, de forma consciente, a partir de um dado momento de sua trajetória, filiou-se a uma corrente poética que faz uso da estética da linguagem surrealista. Isso é muito evidente, não só pelos procedimentos adotados, mas também pela intertextualidade que dialoga com mestres dessa linhagem poética.
Sabedor, entretanto, de que Escolas não há mais, o poeta soube extrair aquilo que lhe interessava também de outras correntes além do surrealismo, como, por exemplo, construir um poema longo utilizando recursos estéticos próprios do poema breve.
É justamente quando recorre a esses procedimentos que “acontece a subterrânea, discreta transição interior das palavras, do sentido velho ao sentido novo”, para lembrar José Guilherme Merquior. No nosso modo de entender, é nesse tipo de poema, onde sua caudalosa imagética, contida pela forma, ganha mais força e expressividade, como no capítulo que abre o livro, DESERTO DOS PÁSSAROS ÚMIDOS, na verdade um longo poema (como aliás, parecer ser o livro como um todo), divido em vários poemas, dos quais cito aqui o primeiro deles:
I
o tempo
navega
além do rio
o tempo
prisioneiro
o tempo
além da vontade da água

porta parada

homem oco e seus relógios
nome deitado cego
escondido nas raízes da água
enterra sua sombra
nos galhos de um arco-íris

parado na porta
o tempo

Por mais imaginários que possam parecer seus poemas, é do real que partem: dúvidas, de ordem prática (“o que faço com o poeta depois de escrito o poema?”); de ordem metafísica (“quantas pedras habitam o abismo?”); da memória (“o corpo da infância / - roupas guardas - / lembranças no armário”); da amada (“Ana / me carrega”; do cotidiano (“A CIDADE / anúncio percorrido por sapatos apertados”). Assim, real e imaginário convivem em seus poemas, com também convive o delírio dos sentidos (A QUARTA LÍNGUA DA LUA / passa pelo corpo / & a primavera / soluça espectros de pétalas / sua semente”), que habilmente o poeta vai transformando em poesia.
Neres, neste seu livro de estréia, sabedor de que não há mais possibilidades de rupturas, incorpora elementos essenciais da modernidade ao seu fazer poético e tenta busca sua própria voz, dando novos sentidos a velhos sentidos.
O título daquele disquete-livro, Muitos caminhos, foi profético: o poeta escolheu o seu e, como diria o grande poeta espanhol, vai fazendo o caminho ao andar.
Dalila Teles Veras - Livraria Alpharrabio 07.05.09

JGeraldo 05 - JGeraldo 05

Enquando isso, lá fora, na entrada da livraria, EMOL, o artista/grafiteiro, pintava um muro integrando-o ao jardim, deixando sua marca para que os passantes da Rua Eduardo Monteiro possam aprecia-la e saber que a arte passou por ali (e ficou).

Trabalho, cultura e bem-comum

9 de Maio de 2009 @ 00:05 por Dalila

LRAlves 01 - LRAlves 01

Prof. Luiz Roberto Alves

Com imperdoável atraso, registro aqui um encontro muito especial, uma verdadeira celebração da inteligência, ocorrido no último dia 25 de abril no Alpha: O lançamento do livro do professor Luiz Roberto Alves, Trabalho, cultura e bem-comum (Leitura Crítica Internacional), publicado em 2008 pela Editora Annablume, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, durante o qual, os presentes puderam ouvir um memorável depoimento do autor sobre a pesquisa e o processo de trabalho que resultaram nesse livro, bem como a opinião acerca do mesmo dos convidados Celso Horta, jornalista e Raphael Marques, Vice-Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Este livro resulta de um trabalho de pesquisa realizada pelo autor entre 2006 e 2007, na Universidade de Florença, com apoio do CNPq e da Universidade Metodista de São Paulo. A apresentação do livro é feita pelo Professor Adilson Citelli, da ECA- USP.

LRAlves 02 - LRAlves 02

Celso Horta

“Este livro é uma batalha, colocar em linguagem acadêmica aquilo que eu tenho visto há muito tempo”, foi a frase inicial proferida pelo autor. Na impossibilidade de condensar aqui a densidade daquele depoimento, reproduzo abaixo, em forma de resenha, um texto do próprio prof. Luiz Roberto que, na forma escrita diz bem do que foi dito oralmente naquela ocasião. (dtv):

“Considera-se que a linguagem é o lugar central das batalhas econômicas e políticas contemporâneas. A obra centra-se nos processos de comunicação de organizações públicas e privadas sobre o mundo do trabalho em contínua precariedade e no projeto internacional de apagar as diversidades político-culturais e negar o bem-comum nas negociações do chamado livre-mercado. Resulta que os atuais discursos econômicos não têm nova linguagem para compreender e explicar, sozinhos, a grandeza da crise internacional. Muito menos que se possa impor novo paradigma de capitalismo no meio da fadiga financeira. Qual a razão do impasse? Precisamente porque a linguagem econômico-financeira dominante nos anos 90, a partir do apagamento de sentidos do trabalho humano, dos bens públicos e da diversidade político-cultural, erigiu-se como fundamento único da história, espécie de moeda linguística mitificada. Seu respaldo? O discurso tido como refinado e competente das assessorias dos países da elite econômica da Terra. Assessores, governantes e financistas internacionais, juntos em seu projeto auto-explicativo da História pós-1989, não se perceberam como indutores de mito e, depois, como mito global a arrastar as consciências políticas para situações de cegueira e afasia. Tais distúrbios são mais evidentes no estupor de 2008. Mito, aqui, é entendido na acepção proposta por Roland Barthes, que o trabalha como espécie de roubo comunicativo, de difícil desmobilização. No processo estudado, entre 1990 e 2005, ocorreu um roubo de linguagens da sociedade ocidental, que vitimou – e vitima - exatamente os valores que poderiam reencaminhar as governanças saídas da guerra fria, isto é, os valores culturais do trabalho decente, dos bens sociais tornados bem comunitário e da diversidade sócio-política no tratamento da economia, das finanças e das políticas sociais. A leitura intensiva dos documentos da OCDE, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, assessora do G-8, especialmente seus famosos estudos reunidos na série denominada Economic Outlook, revela o fundamentalismo desatinado das propostas neoliberais, em cujas redundâncias e repetições de fato se revelam relatos de contos ou narrativas do folclore tradicional, conforme estudados por Greimas, Propp e outros críticos da cultura. Fazendo-se ficção enquanto propalava esmerada ciência econômica, aquele pensamento de elite, lido na pesquisa realizada entre 1992 e 2005, mistifica a consciência política de governantes e dirigentes de arranjos produtivos e impossibilita a gestão diversa, ecológica e equânime do processo social. As supostas governanças são arrastadas por uma unidade discursiva e dizem amém a três valores míticos: os paradigmas da memória harmônica do mundo, do bloco da prosperidade global e do governo avalizável pelo mercado. No mito entronizado termina a diversidade política e o ajuste macroeconômico neoliberal passa a ser o graal. De fato, o centro do mito. Diante dele, até mesmo o estado de bem-estar (ou bem-comum) ainda defendido aqui e ali é visto como fraqueza, doença política. Vê-se que o acúmulo da linguagem mítica produz, hoje, a multiplicação dos sofrimentos sociais, especialmente entre os pobres reais e pobres potenciais do mundo.
A obra encontra nos discursos de trabalhadores organizados em movimentos sindicais do Brasil, Itália e Alemanha um projeto de gestão alternativa, mas esses discursos até 2005 revelavam-se impotentes diante do apagamento avassalador de valores correlatos. Ora, os discursos sobre o trabalho não se tornam exponenciais fora da articulação com os bens-comuns e as diversidades das culturas, quer do chão-de-fábrica, do bairro suburbano e das profissões liberais comprometidas com o destino das comunidades cívicas. Os liames foram apagados pela força das linguagens do mito cientificizado, assumido por governos e demais setores econômico-financeiros. Tais discursos são perfeitamente enquadrados nos relatos das personagens travestidas de redentoras e libertadoras das estórias folclóricas. Tais discursos não podem, hoje, explicar o estouro porque ainda estão presos a uma semântica padronizada pelo longo tempo de fundamentalismo. Somente linguagens liberadas e fronteiriças de vários saberes podem repensar produtivamente os rumos da crise e criar novos gestos de governança, notadamente se compartilharem de modo vivo e contínuo o debate das culturas, do trabalho decente e dos bens-comuns locais e globais.

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Raphael Marques

O livro é trabalhado por metodologia sócio-semiótica, que permite o rastreamento de discursos e a consequente revelação de projetos sociais em movimento de disputa simbólica. As conexões das diversas leituras sociais trazem à arena de luta camadas de significação social pelo uso reiterado de imagens e sinais organizados pelos produtores de mensagens em seus contextos de referência. No movimento de leitura, o autor se incomoda com os sentidos banalizados de expressões tais como paradigmas, competências e desenvolvimento, suas crises e reposições de sentidos, via de regra artificiais. Introduz, destarte, o debate da solidariedade discursiva, que lentamente tece sentidos, a despeito da mistificação político-econômica vitoriosa, agora decadente e carecendo de novas artimanhas para manter seu poder. O que de fato pode redimir o processo social degenerado não é a interposição de novos paradigmas econômicos, mas a solidariedade das conexões sociais, das ligações horizontais, comunitárias, vivas e ativas como novos sintagmas dos atos de trabalhar, construir diversidades solidárias entre as culturas e aprofundar o bem-comum, único lugar onde as maiorias humilhadas e ofendidas (de classes sociais diversas) descobrem que são sujeitos de linguagem e dignidade.
O livro pensa a sociedade com as armas da estética, dos estudos de linguagem e da atitude interpretativa. Trata-se de uma obra política que deseja participar dos estudos em favor de novas e ousadas culturas nas gestões sociais”

LRAlves 04 - LRAlves 04