Sábados PerVersos – a poesia em questão IV e V

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(arquivo Lenir Viscovini)

Registramos aqui os últimos dois encontros de Sábados PerVersos (o IV e o V) ocorridos na Livraria Alpharrabio, em 28 de março e 25 de abril.
Sobre o encontro de março, este texto de Deise Assumpção:

Março, dia 28, último sábado do mês, beirando a Santa Semana da Paixão e os aleluias da Páscoa. Mais um Sábado PerVerso – a poesia em questão. Os persistentes apreciadores da poesia novamente na távola nem tão redonda do Alpharrabio. Desta feita, o calor e o mormaço recolheram-na ao grande salão, e a coordenação esteve a cargo de Márcia Plana, professora e poeta, que desafiou nossa sensibilidade com dois poemas.

Diante de Rios sem discurso de João Cabral de Melo Neto e de Alegria (poema-imagem de Arnaldo Antunes), o grupo vibrava a cada descoberta de sentido embaralhado nas formas visuais, rítmicas, sonoras, gramaticais… Leitura metalingüística, social, humana, filosófica (e tantas outras) das inúmeras insinuações que Cabral vai largando como que sem querer em seu discurso-rio. Tateamos, pelos pedaços de água do rio cortado, buscando reatar linguagem e mundo. Linguagem e mundo em uníssono reverberados na Alegria (Aleluias) de Antunes a girar sentidos que se fazem e desfazem, ou, desfazendo-se, fazem-se. A palavra única de Arnaldo Antunes, em quase situação dicionária, reata, pelo movimento e pelo deslocamento gráfico, a sintaxe desse rio.

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Já no último 25 de abril, o encontro (o V) foi coordenado pela poeta Conceição Bastos, que iniciou dizendo, de memória e de maneira emocionada, o poema de Manuel Bandeira, Evocação do Recife

A seguir desafiou todos os participantes a relatarem um episódio de sua infância e finalizou com a audição de um CD com o próprio Bandeira dizendo o mesmo poema. Momento, sobretudo, bastante fraterno que propiciou travar conhecimento com o material humano da memória de cada um dos presentes. A poesia lida, a poesia dita, a poesia ouvida, a poesia como matéria de memória.

Como não houve tempo de concluir o exercício proposto pela coordenadora, ou seja, um poema a partir dessas evocações, foi sugerida uma lição de casa: escrever um poema sobre o episódio narrado (o próprio ou o alheio). Traga o seu também, mesmo que não tenha comparecido ao encontro, que será realizado, como os demais, no último sábado do mês, dia 30 de maio, portanto. (dtv)

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Rubervam Du Nascimento e o prazer da língua e da poesia

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Rubervam Du Nascimento, poeta brasileiro que nasceu no maranhão, mas nem ele mais acredita, pois é no Piauí que vive e trabalha, mais propriamente na “distanteresina”, local de onde dispara seus projéteis poéticos para o Brasil e o mundo. Um dos últimos foi parar em Moçambique e, amarrado a ele, lá se foi o poeta, dizer seus versos e alheios. Fez o maior sucesso e “O prazer da língua” virou projeto que já percorreu alguns estados brasileiros. No mês passado, aportou em Santo André, mais precisamente naquela casa de cultura plantada há 23 anos na Eduardo Monteiro, por onde ele já passou algumas vezes, a primeira delas no já distante ano de 1993.

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Sempre performático, vai acendendo lanternas da poesia para iluminar mentes e caminhos, lá veio ele, desta feita acompanhado por dois excelentes músicos Ronaldo Nunes e Igor Seiji a pregar sua “profissão dos peixes”.

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Mas não só, Houve também manifesto poético, exibição de vídeo (“às vezes, criança”, fotos incríveis de Sérgio Carvalho e poemas de Rubervam, porque o poeta, advogado, atua como Auditor Fiscal do Trabalho e nessa função, viu coisas que fazem com as crianças deste Brasil, que até Deus duvida – e disso fez poesia, porque poesia também pode e deve ser denúncia). Por fim, mas não menos importante, a 5a. edição, de bolso, do seu livro de poemas “espólio” foi autografada, celebrando com cajuína e castanha de caju, produtos autênticos do seu lugar, a ponte há tanto tempo construída, Teresina-SantoAndré, cujas tábuas são os versos e a fraternidade.

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O registro fotográfico, como sempre, é de Luzia Maninha.

Deixo aqui, a quem interessar possa, a breve apresentação que fiz para o livro “espólio”, (Scortecci, 2008), agora na 5a. edição, de bolso.
Acompanho a trajetória poética de Rubervam Du Nascimento desde que ele mesmo se autodenominava poeta de um livro só: A Profissão dos Peixes, livro que foi transformado por seu autor num recital performático, denominado Corpo-a-corpo, levado com muito sucesso por todo o Brasil. Era sua intenção reeditá-lo a cada cinco anos, sempre em edições revistas e diminuídas, até a “impressão da Pedra/Peixe, em enormes cartazes”, moto-contínuo às avessas. Assim foi com a 2ª. Edição, em 1993 e… bem, o poeta resolveu mergulhar em outras águas, aumentar o estoque do oxigênio e de lá, da “Distanteresina”, enviar seus poemas em garrafas que foram sendo recolhidas em portos sem prévia destinação. Em 1997, uma dessas garrafas é recolhida por Leila Miccolis, da Editora Blocos, no porto do Rio de Janeiro, e leva o 1º lugar do 1º Concurso Blocos de Poesia: Marco Lusbel desde ao inferno, um livro, no mínimo, perturbador. Sem discuidar da linguagem, particularíssima, o poeta, na pele de Lusbel, vai exercendo seu papel sedutor de almas, enquanto, não sem uma fina ironia, vai apontando as feridas sociais. Bons anos depois, uma dessas garrafas é recolhida nos portos do Recife, e lá recebe mais um prêmio, o Prêmio Literário Cidade do Recife, em 2005. “Os Cavalos de Dom Ruffato”, o livro premiado e editado pela Prefeitura daquela capital, o poeta revira o seu baú de memórias recolhidas em suas andanças, mas também recolhas da memória ancestral, verdadeiro cavalo de tróia, carregado de surpresas, onde uma avó inca remete a mundos míticos, repletos de simbologias, mas também (novamente) de indignações sociais.
Muitas luas depois, o nosso poeta mergulha novamente em seus baús de inventos e recolhas, e envia mais uma de suas garrafas que aporta em Sampa (“como costurar vela dos barcos de aço / elas rasgaram sem pena asas do mar”) e abocanha mais um prêmio: VI Prêmio Literário Asabeça, 2007, cujo resultado é este espólio, volume para o qual não poderia haver título mais adequado. Trata-se de um comovente espólio de “inutilidades” que só um poeta em sua plenitude poderia transformar em verdadeira poesia. O universo da paisagem e dos personagens poderia ser classificado como o de uma verdadeira saga nordestina, mas que, pela sua extraordinária carga de humanidade, pode muito bem ser “colada” numa paisagem nórdica, americana ou de qualquer recanto do planeta, onde “toda escrita ficou rouca / de tanto exigir da língua / toda escrita ficou vazia / diante do sumiço da ira”. Sem deixar de exercer sua capacidade de indignação, Rubervam mergulhou fundo mesmo foi no ofício da palavra, da qual se serve para produzir esta poesia que veio para ficar, não à superfície, como garrafa enviada por um náufrago qualquer, mas por alguém que sabe que a garrafa e a palavra nela contida chegará ao porto almejado.
Dalila Teles Veras

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Um encontro com José de Souza Martins e apresentação de seus novos livros

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A Livraria Alpharrabio, recebeu no último mês de março o prof. José de Souza Martins, um dos mais importantes cientistas sociais do Brasil, para mais uma memorável conversa de livraria, a propósito da apresentação de seus mais recentes livros, Linchamentos: a justiça popular no Brasil, Editora contexto, 2014 e Desavessos – crônicas de poucas palavras.

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Uma plateia composta por escritores, memorialistas, professores e alunos da UFABC, acompanhou atentamente a fala, sempre cativante do Prof. Martins, interagindo com perguntas e colocações pertinentes.

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Linchamentos: a justiça popular no Brasil é resultado de anos de pesquisa e estudo sobre essa forma de comportamento coletivo, que ganhou notoriedade no Brasil nos últimos 20 anos, ainda que não seja novidade na sociedade brasileira, uma vez que, assim nos aponta o professor, há registros documentais dessa força de justiçamento no país ainda na metade do século XVIII. Informa-nos ainda que há poucos estudos sociológicos e antropológicos a respeito em parte “em decorrência da dificuldade para tratar sociologicamente de processos sociais em conflito com o pressuposto moderno da razão”. Aponta o prof. Martins para o fato de estar o Brasil entre os países que mais lincham no mundo. Essas ações, motivadas por atos gravíssimos de estupro de crianças, por casos de incesto, por roubos que vitimam pessoas pobres e desvalidas, culminam no trucidamento violento dos acusados.

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Desavessos, um livro de crônicas (crônicas?), nasceu de observações anotadas pelo autor ao longo de muitos anos de “observador da realidade social, em que também me observo como mediador de conhecimento e observo o outro que há em mim. Observador de contradições e avessos, busco nos desavessos a dinâmica imaginária do real que há no espelho que revela as ocultações do invisível”. , em que também me observo como mediador de conhecimento e observo o outro que há em mim”. um livro que nasce das “entrelinhas e nas entrecenas do trabalho científico” para virar poesia.

Esperança

Não há poesia
nesta folha nua.
Apenas a brancura
do verso possível.
Branca esperança
na rima que há de vir

Sim, o livro é composto, ainda que o título e o autor neguem, de 55 poemas intercalados por fotos que, “mais do que ilustrações”, carregam múltiplos significados.
Neste livro, primorosamente concebido também como objeto gráfico pela Com-Arte Editora Laboratório da Escola de Comunicações e ARtes da USP, 2014, o sociólogo/fotógrafo permite-se e entrega-se à emoção e o que era anotação na margem da ciência transforma-se em poesia de surpreendente feitura estética. Uma reunião do que separado estava e, neste conjunto, forma uma admirável narrativa poética que muito diz do poeta que não se diz poeta, mas que poeta é.
Para quem acompanha a obra de José de Souza Martins, um livro de poemas não constitui novidade absoluta. No livro José de Souza Martins – Coleção “Artistas da USP”, Editora da Universidade de São Paulo, SP, 2008, podem ser encontrados inúmeros poemas em diálogo com as imagens, prenúncio do que viria depois. À extensa biobibliografia do professor, pesquisador, cientista político, fotógrafo, articulista, cronista, fica, agora, acrescida mais uma qualificação que, nem maior nem menor do que as demais, integra e interage com elas: Poeta.

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A palestra/aula magna do professor foi seguida de uma sessão de autógrafos. Entre o brinde costumeiro, a prosa estendeu-se tarde adentro, numa celebração fraterna do intelecto. (dtv)

O registro fotográfico é de autoria de Luzia Maninha

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Perdidos-Achados-Escritos no Passarela Zine

PASSARELA ZINE
ARTE E CULTURA ANDREENSES

PassarelaZine

EXPOSIÇÃO: Perdidos-Achados-Escritos
26.02.2015

Postais, papel de bala, propaganda de pasta de dente, cartas de baralho e outras coisas aparentemente sem importância encontradas dentro de livros serviram de gatilho criativo para que 53 escritores criassem microcontos,mini-crônicas e poemas para a exposição Perdidos-Achados-Escritos, em cartaz na Livraria Alpharrabio. Reunidos três a três os textos formaram pequenos livros que foram expostos como se fossem obras de artes visuais . O projeto foi idealizado pela escritora e dramaturga Adélia Nicolete ,com curadoria da escritora, livreira e dona da Alpharrabio ,Dalila Teles Veras e em parceria coma artista Luzia Maninha para comemorar os vinte e três anos da livraria.

“A Adélia vinha fazendo uns ateliês no Museu de Santo André que trabalhavam com Memória, e numa conversa sobre esses objetos perdidos -achados nos livros ela ficou empolgada e realizou um ateliê da memória lá mesmo a partir desses objetos” , explica Dalila sobre a origem do projeto. Luzia Maninha não só pensou no instigante espaço expositivo, como concebeu e confeccionou os livrinhos em seu ateliê. Já o poeta Zhô Bertholini colou lambe-lambes com cópias dos textos na parte externa da livraria, formando uma espécie de mural-mosaico.

Os textos podem ser lidos em http://perdidosachadosescritos.blogspot.com.br/ mas o ideal é que se faça uma visita ao Alpharrabio porque a obra só se realiza ,de fato, presencialmente, uma vez que não é uma experiência meramente visual, não é “só” de literatura que se trata . A montagem de Maninha coloca o objeto recolhido escondido atrás do livreto de modo que, ao escolher um destes livros, o leitor está de certa forma também participando da mesma descoberta que originou a exposição.
E, ao final da visita, a sensação que fica é que os objetos, que como corpos estranhos haviam invadido a literatura, foram invadidos por ela.

Perdidos-Achados-Escritos
De 21/02 a 25/04
Seg.a sex. : 13h às 19h. Sáb. : 9h30 às 13h.
GRÁTIS
Alpharrabio Livraria e Editora
R. Dr Eduardo Monteiro, 151 , f. 4438 4358

Publicado no Passarela Zine

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A festa dos 23 anos registrada por quem dela participou II (Constança Lucas)

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Texto da artista Constança Lucas, publicado originalmente em sua TL do Facebook:

cronica de são paulo
no Alpha a festa foi bonita, o reencontro com diversas pessoas amigas, no aniversário de 23 anos desse espaço que é um polo de excelência cultural no ABCD, capitaneado pela poeta Dalila Teles Veras e pela fotógrafa e designer Luzia Maninha, com a colaboração diária da Eliane Teressam Ferro, mulheres de fibra e utopias, hoje também foi a abertura da exposição ” Perdidos – achados – escritos ” idealizada por outra mulher criativa a professora Adélia Nicolete, a expografia que é da responsabilidade da Luzia Maninha e do poeta Zhô Bertholini está ótima, muitas mulheres estiveram presentes, muitos foram os homens que também foram, inclusive teve o lançamento do último livro do Tarso de Melo que conheci no Alpha lá pelos idos 1993 ou que tais, embebido de poesia desde esse tempo, todos conversamos animadamente como se nos engolíssemos uns aos outros, a cada palavra duas, a cada duas quatro e a festa foi acontecendo por horas, perlongámos as conversas num restaurante, e fomos tomar um vinho madeira especial, encontros assim têm de se repetir mais vezes,… de volta a sampa o carnaval de blocos tinha as ruas tomadas e não consegui ir na festa da Patuá, entretanto fiquei a ler um ensaio “sejamos todos feministas” da Chimamanda Ngozi Adichie, feminista que enfrenta as questões de gênero e suas especificidades, ela escreve “tanto um homem como uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos. Mas nossas ideias de gênero ainda deixam a desejar.”, eu sempre estive no seio de machismos, familiares, profissionais, afetivos, aprendi a autonomia, enfrento dia a dia questões de gênero profundas – nós fazemos a cultura – a igualdade tem de sair do papel e ser uma prática constante …
Constança Lucas, fevereiro 21 para 22, em 2015

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A festa dos 23 anos registrada por quem dela participou (Daniel Brazil)

Reproduzimos aqui o texto do jornalista Daniel Brazil, publicado originalmente em seu blog “Fósforo”, com os devidos créditos e agradecimentos:

Perdidos, achados, escritos

Os surrealistas franceses criaram o conceito de objet trouvé, objeto encontrado, e faziam arte a partir dos detritos da civilização industrial, revolucionando o conceito de escultura. Adeptos da colagem e da assemblage, também deram novos significados a recortes de jornal, fotografias, anúncios, tecidos, bulas de remédio, cabelos, folhas secas e mais uma infinidade de objetos. Arrumados numa tela, ou melhor, num plano, essa estética da acumulação rompeu com os limites da pintura tradicional e redefiniu os caminhos da arte no início do século XX.

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É comum nos depararmos com um objeto qualquer e imaginar que aquilo poderia virar outra coisa. Os readymade surrealistas causaram furor, tendo como ícone a “Fonte” de Duchamp. Para muitos, apenas um urinol invertido, para outros, uma invenção fantástica a partir de um objeto industrial. Picasso fez uma cabeça de touro a partir de um guidom e um selim de bicicleta. Crianças do interior espetam palitos num chuchu e isto vira um boizinho.

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E objetos encontrados em livros? Fotos, cartões postais, bilhetes de ônibus, ingressos de teatro, selos, recados, flores secas, santinhos, calendários… Quem nunca topou com essas coisas fuçando em velhas estantes? Imagine quem trabalha com isso, num sebo. É como se a mão do acaso semeasse grãos que expostos à luz fossem germinar de forma imprevisível.

Pois o sebo-livraria-editora Alpharrabio, polo cultural de Santo André, ao completar 23 anos de intensa atividade, resolveu montar uma exposição destes objetos encontrados em livros. Mais que isso: convidou poetas, prosadores, agitadores culturais, artistas plásticos e midiáticos a interagir criando pequenos textos, em poesia ou prosa, inspirados nos objets trouvés. Devidamente escaneados e colocados na rede, cada imagem podia ter até três intérpretes literários, com um limite de 300 caracteres.

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A ideia partiu da dramaturga e professora Adélia Nicolete, especialista em processos colaborativos. Mas como organizar uma exposição dessas? O óbvio seria pregar o objeto na parede e pendurar ao lado os resultados. O pessoal da Alpharrabio nunca se contentou com o óbvio. Ao entrarmos na livraria, vemos uma surpreendente coleção de livrinhos artesanais com uma imagem na capa, dispostos em prateleiras. Ao pegar um deles revelamos o objeto, escondido atrás. E dentro do livro as leituras poéticas, sensoriais, engraçadas, trágicas, irônicas, transcendentais, amargas e sintéticas de 53 autores. Edição única, exemplares únicos, misturando escritores consagrados, emergentes e inéditos.

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A execução e montagem da exposição, de Luzia Maninha, são dignas de aplausos. O que dizer de uma exposição onde o público está sempre com um livrinho na mão, lendo e conferindo uma imagem na parede? Literatura viva, dinâmica, provocativa e interativa, motivando e encantando leitores. Os inquietos pioneiros do século passado iriam adorar (nem eles pensaram nisso!).

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Difícil ler tudo de uma vez só. É preciso retornar, curtir, filtrar, depurar. Muitas bonitezas, algumas ligeiras, outras profundas. E a festa (sim a inauguração foi uma festa!) teve o brilho extra do lançamento da coletânea do poeta Tarso de Melo, com direito a intervenções estimulantes da anfitriã Dalila Teles Veras, do editor Reynaldo Damasio e do próprio autor.

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Quer conhecer algumas obras? É só acessar os links abaixo. Mas recomendo com fervor uma visita à Alpharrabio, para tomar um cafezinho e se deliciar com este encontro poético de épocas, gerações, indivíduos que nunca se conheceram, que motivados por um simples gesto de abandono nas páginas de um livro propiciaram a todos nós uma experiência estética inesquecível.

http://perdidosachadosescritos.blogspot.com.br/

https://www.facebook.com/PerdidosAchadosEscritos

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Sábados PerVersos – a poesia em questão

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A poesia que sempre pautou em larga escala as atividades desta casa de cultura, foi o ponto de partida para este 2015.
Sábado, 31 de janeiro, uma manhã bonita de sol. Na távola, nem tão redonda, poesia. O Encontro, que a partir de agora, passa a acontecer todo o último sábado do mês, já tem nome: Sábados PerVersos – a poesia em questão.
Não teremos um coordenador fixo, mas a cada mês haverá revezamento da coordenação. Vem quem quer, sem nenhuma exigência prévia.
Desta feita, inaugurando o processo, a coordenação esteve a cargo da professoa e poeta Deise Assumpção que demonstrou ter feito uma escolha feliz. Levou ao grupo dois poemas para serem lidos, discutidos, analisados. Um de Adélia Prado, poeta largamente conhecida “que faz do cotidiano liturgia, não no sentido de religião, liturgia do sagrado e do próprio cotidiano ressignificado”) e outro de Tarso de Melo (“poema completo, onde nada é gratuito a dialogar com Gelman e o universo”), poeta que acaba de publicar sua obra reunida no volume Poemas 1995-2015, pela Dobra Editorial.
Poetas de gerações diferentes e dicções idem, mas que, por fim, puderam, ainda que para descrença ou desespero de alguns, se encontrar nas dobras e esquinas da poesia posto que falam da “impossibilidade de nomear o inominável” ou “dizer o que escapa”. Nada mais apropriado para um início de um processo de leitura e discussão crítica de poesia, iniciar com dois poemas metalinguísticos. Deu certo. E, como sempre, constatar que essas sendas são insondáveis e infindas.

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Abaixo, publicamos os poemas lidos e discutidos, com uma provocação ao leitor virtual: que tal fazer sua leitura crítica e deixar aqui as suas impressões? Assim, transformamos os sábados em todos os dias e a poesia invade o cotidiano, sem hora aprazada. Aguardaremos (dtv)

Poéticas (1)

«Va a sus versos como quien va a su cueva» (Juan Gelman)

De onde caem as vozes que falam no poema,
cai também um pouco de silêncio. E vontade

de dar nome ao silêncio, ao que foge sob o que é dito,
ao que fica amarrado nas palavras que o sustentam

– o poema, enterrado na cova do poema, nomeado
e inominável. Para além das palavras, na carne –

cerne – do sentido, como uma dor. Ou sua fome.
Como o que vem à cabeça – rói a memória e parte.

Parte em parte. O que vai ao poema é pálida sombra
do que fica nos ossos. Gravado, em febre, incrustado.

O que é dito se faz das palavras que um – com os dias,
alguma paixão e suas armas – salva daí. E partilha

incontrolável, vento em redor de si mesmo, água entre
dedos, sonho e chama, “árbol sin hojas que da sombra”.

O que se há de dizer escapa: cruza o rio de palavras
e chega, cada vez mais seco, à outra margem.

[para o Reynaldo]

Tarso de Melo

(In Caderno Inquieto. Dobra Editorial, S. Paulo, 2012, p. 11)
Antes do nome

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o ‘de’, o ‘aliás’,
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

Adélia Prado
(In Poesia Reunida. Siciliano, S. Paulo, 10a ed., 2001, p. 22 – livro Bagagem)

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(fotos: Luzia Maninha)

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Um muro como arte pública

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Exposição Paisagem In’terna.

Este muro da Livraria Alpharrábio, cenário de inúmeras exposições, já se consagrou como um importante painel da Arte Contemporânea regional, acessível ao público sem exigência ou compromisso formal.

Por isso, quem o observar, de dia ou de noite, estará sempre se conectando a uma mostra do que é fazer arte contemporânea no ABC.

A questão que intriga a artista é:

Seríamos nós, os passantes dali, pessoas que caminham pelas ruas buscando encontrar manifestações artísticas para agregar algum valor sensitivo ou emocional ao nosso dia a dia? Ou seríamos pessoas que ao nos deslocarmos, já não teríamos mais como curtir o entorno porque nossa atenção estaria toda tomada por assuntos mais urgentes, como a nossa segurança pessoal?

Nos anos 60 – 70, quando usamos o aforismo “Paz e Amor” como instrumento para solucionar um déficit de atenção em nossas vidas, respostas apareceram como num passe de mágica e muitas pessoas viveram e tentaram proliferar esta ideia. Como uma flor foi capaz de questionar a guerra?

Por isso a contribuição da Artista à “Paisagem Interna” neste mural destinado ao público, está relacionada a questões que hoje se sobrepõe ao amor no nosso dia a dia, como as questões de insegurança que impõe enormes restrições ao sagrado direito de ir e vir; do aprisionamento da imagem do indivíduo em seu próprio “Self” globalizado e da certeza de que são muito mais fortes os poderes dos instrumentos de manipulação psicológica do que a capacidade da sociedade em resistir a eles.

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Pensando que só o amor pode combater a violência, nos mesmos moldes do hippieismo, a artista sugere uma reflexão sobre amor e compaixão em resposta a dor de uma vida aprisionada em gaiolas de fios dourados com manchas vermelhas lembrando o sangue da violência urbana.

E mesmo que ser livre, amado e amar outras vidas possa parecer coisa inatingível, utópica ou démodé em nossa sociedade contemporânea, aquelas pessoas estão ali, naquele muro, clamando por mais amor, paz e liberdade.

Damara Bianconi e Fernando Di Lascio

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Sobre a Exposição Paisagem In’terna
Idealização: Constança Lucas
Organização, produção e projeto expográfico: Constança Lucas, Luzia Maninha e Alpharrabio Livraria, Editora, Centro Cultural

Abertura: 18 de outubro de 2014 (sábado) 11h – Até 13 de dezembro de 2014 (sábado)

Local da exposição:
Alpharrabio Livraria, Editora e Centro Cultural
Rua Eduardo Monteiro 151
09041-300 Santo André – SP
Telefone: (11) 4438. 43 58
de segunda a sexta, das 13 às 19 horas
sábado, das 9h30 às 13horas

Paisagem Int´terna na internet:

http://expopaisageminterna.blogspot.com.br/

https://www.facebook.com/paisageminterna

Alpharrabio na internet:

http://www.alpharrabio.com.br

https://www.facebook.com/pages/Alpharrabio-Livraria/347044205324872?fref=ts

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E o ano Alpharrabio encerrou em poesia, a de Luciano Garcez

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Encerramos em alto estilo poético a programação de 2014, com um memorável bate-papo, performance e sessão de autógrafos do livro “A Mais Atada à Tua Palavra – O Caderno de Maria L., em Mãos, Seguido de Avulsos do Poeta B.”, livro de Luciano Garcez e Marianne Liuba Löhnhoff (Editora Kazuá).
Este é o quarto trabalho literário do poeta-músico, dramaturgo, compositor, cancionista e maestro Luciano Garcez (e, de quebra, performer, como bem demonstrou nessa noite do dia ….). Nele, Luciano mostra o “ousado exercício psicológico-literário de desprender-se de seus Eus, na forma dos heterônimos que lhe pertencem”. Um livro híbrido, complexo, intrigante e instigante.

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“Poeta e músico que trabalha na borda e transvaloração de diversas linguagens artísticas, e elogiado por nomes como Haroldo de Campos, Eduardo Navarro, Walter Franco, Augusto de Campos, Florivaldo Menezes e José Miguel Wisnik, entre outros, Garcez cria, para além do tradicional livro de poemas com uma sua “outra voz”, a carnalidade dela própria, isto é, Mariana L. e o Poeta B. passam a existir no real e no hiper-real, encarnados nas figuras de “atrizes-médiuns”, que se fazem presentes, falantes e atuadoras em redes sociais, eventos – em miríades de próprias opiniões, personalidades detectáveis e sons, mais que apenas imaginários ou imagéticos”

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A participação de Marianne Liuba Löhnhoff foi decisiva para que a performance atingisse o poético e revelasse o mistério. (dtv)

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perdidos-achados-escritos: para celebrar os 23 anos

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perdidos-achados-escritos para celebrar os 23 anos

De permeio a toda essa atividade (exposições, conversas, debates, lançamentos de livros), dois Ateliês Relâmpago de Escrita, capitaneados por Adélia Nicolete nos dias 03 e 17/11/14, quando foram aplicados exercícios coletivos de criação de textos, com base na coleção de “achados” dentro dos livros usados, adquiridos pela livraria.
Esses textos, mais os enviados por algumas dezenas de pessoas que foram instigadas a produzir micro-textos em diálogo com objetos “perdidos-achados” e agora escritos, serão objeto de um exposição no Alpharrabio, a ser inaugurada na festa de aniversário da Livraria Alpharrabio, no sábado, dia 21 de fevereiro de 2015.

Acompanhe pelo blog do evento, clicando aqui

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registro fotográfico de Luzia Maninha

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