Sábado, manhã, sol frio de inverno, um mergulho matinal nos mistérios do pensar poético, através de outros pensares, o de Octavio Paz e Vera Lins, com intervalo de exatos 50 anos. No 151 da Dr. Eduardo Monteiro, oito observadores (Tarso, o burgomestre, maquinador das provocações, Deise, Kleber, Jean, Possidonio, Edmundo, Valdecirio e eu ), os mais assíduos, desde que o Observatório do Poema foi criado, há mais de dois anos (totalizando até aqui 27 encontros mensais), falam, ouvem, discutem, tomam café, por mais de duas horas. Poesia, sociedade, Estado, ambiguidade do romance, tempos sombrios, o que faz da poesia ser (ou não) poesia. Unanimidades, dissonâncias, silêncios, interrogações. Octavio Paz dixet: “a arte para poucos quase sempre é a livre resposta de um grupo de artistas que, aberta ou sorrateiramente, se opõe a uma arte oficial ou à decomposição da linguagem social”. Haverá, entretanto, ainda no mundo uma arte oficial? (oficial por parte de quem? Do mercado, do Estado, da comunidade literária?). Qual a razão das sombras na poesia contemporânea? Aqui, a pólis é reconstituída, ou, ao menos, a sua idéia, a livre opinião sobre todos os assuntos. Só perguntas? Sim, algumas respostas eventuais, mas a certeza de nos colocarmos em crise, combustível para avançar.
Sábado, tarde, o sol ainda brilha e ameniza a ressaca do pensar matinal. Eis que uma invasão de cor invade o Alpharrabio: carregado de potes e pincéis, o grafiteiro-escultor, artista plástico Vado do Cachimbo, não se faz de rogado e, sem aviso prévio, cumpre a promessa antiga de grafitar a entrada do Alpha. A tatuagem no corpo físico da casinha da Eduardo Monteiro vai tomando formas (chaves, letras, flores, livros, parafusos, roldanas – o ABC re-lido plasticamente) e pondo fim à modorra da tarde esvaziada. Ali ficará, marcando o espaço com a linguagem da cor e da forma, alimentando de beleza os olhares passantes e descuidados.
(dtv)

Afinal, um ótimo sábado !
uaaaauuuuuuuuuuuu
me encontrei com as tintas e pinceis nas mãos ,passando pelo
alpharrabio e ali fiquei noite a fora grafitando uauuuuuu
que delicia, foi um encontro que deixou marcas multicoloridas
nas paredes.
Estou a gostar de ver o ritmo do Alpha blogueiro:)
abraços
Constança
http://constancalucas.blog.uol.com.br/
Dalila,
um poeminha de circunstância
a propósito da conversa… Abraço,
T.
SAIBA
para a Dalila
‹‹sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida›› (JCMN)
(talvez a gente não aceite
que as coisas fiquem inodoras
esperando alguém que revele
nelas
a golpes de esferográfica
o que a alma e os frascos
escondem de alquimia, vazio
e fórmulas insondáveis)
o leitor, amiga, prefere o que é roubado
ou a flor que brota naquilo
que apodrece (e a poesia talvez sofra
ao saber que à véspera da leitura
é apenas – ou depende sempre
de – mercadorias)
talvez a gente não saiba
se já havia ou se ainda há
poesia nas coisas
quando acordamos para ela
(ou para elas) de nosso descuido
habitual e fulminante (poesia,
como o cheiro de morte
que há no corpo ainda quente
enquanto a vida escorre atrás da lâmina
ou o perfume de algumas árvores
que é mais forte quando sangram)
talvez o poeta mexicano
esteja certo e ela seja a morada do mito
(e toda a gente insista em visitá-la
na hora incerta e abrupta)
Tarso de Melo
[6.9.6]