A matéria no Diário do Grande ABC “Bravo! Maestro”, desta feita, não destacava nenhum dos grandes concertos dos quais Flavio Florence tem sido protagonista ao longo dos 19 anos de existência da Orquestra Sinfônica de Santo André. O “Bravo” de agora (4.3.07) referia-se à bravura com que o homem Flavio enfrenta a fatalidade de uma grave doença. Eu, leitora, amiga e admiradora do Maestro, fiz coro ao “bravo”, aplaudindo a forma serena, lúcida, inteligente, corajosa e humana, sem escândalo nem alarde, com que Flavio enfrenta este momento. Imediatamente após a leitura da matéria, me veio à mente uma inesquecível tarde (abril de 1994) em sua casa , à beira da Represa Billings, quando ele ministrou a um pequeno grupo a aula de encerramento do Curso “Música de Concerto Para Leigos”, que ele então ministrava no Alpharrabio. Ouvimos Debussy e Shoenberg comentados de forma didática e bem-humora pelo maestro Flavio. Não por acaso, aquela tarde rendeu dois poemas: “Sinfonia Flavio Florence – Sinfonia da Mata”, de Wagner Calmon e “Anticoncerto de domingo” de Dalila Teles Veras, duas visões poéticas diferentes mas igualmente impactadas pelo clima de arte e inquietude daquela tarde . O primeiro poema permaneceu inédito até hoje e o segundo foi publicado em À Janela dos Dias – poesia quase toda. Na certeza da total recuperação de Flavio, aqui vão os poemas, como homenagem e admiração ao artista, ao intelectual, ao homem Flavio Florence:
Anticoncerto de domingo
(às margens da Represa Billings)
para Flavio Florence
Dalila Teles Veras
Valsas de guerra
para garças desavisadas
: o primeiro susto
de um cálido encontro de inverno
Poemas de Verlaine,
Debussy, tardes e faunos
(profana sagração)
: o segundo susto
no bunker improvisado
Irreverência hierárquica de Schoenberg
revolução de Stravinsky
(Pássaro de Fogo a dançar)
: o terceiro susto
fuga justificada
(Crianças e algazarra
em incessante correr
passam ao largo de conceitos musicais
: música só para os sentidos)
Na dramaticidade inocente dos corpos
as crianças
querem apenas correr
(a arte já está com elas – intrínseco ritmo
constante sobressaltar)
SINFONIA FLÁVIO FLORENCE – SINFONIA DA MATA
Wagner Calmon
Vento, violado vento
Vento, violino vento
Vento, viola vento
Vento violoncelo
Vento belo, vocal da mata
Vento que arrebata
Vento em forma Sonata.
E vêm e vão os assovios
Expondo seres sinuosos
Por entre raios luzidios.
Evoé, deuses da mata
O Fauno floreia sua flauta
Flutuante fantasia francesa
Lenta, leve, levitável
Libelinhamente…
Um convite à dança das folhas
Folhas e vento indo e vindo
Em fuga-espiral ao inifinito.
Clarinetas apressam clarins
Licenças a um novo tema
Alegro, pequenas musas, duendes
Alegro, alegreto, alegro
Vislumbre da Flora-deidades
Dancem, dancem aos pares
A passos largos, compassados
A passos lassos, repassados
Passos binários, quaternários
Na dança de damas e dândis.
Evoé, aos elfos e sacis
Evoé, aos curupiras
Evoé, aos flautins e às flautas
Evoé, evoé, evoé
Que a Arte humanize os homens
Sem almas e surdos. Sem palmas
Para o apelo sensível da Mata
Que faz de sua pauta a Harmonia.
E finda assim faustosamente
A exposição-tema do Fauno
Que vai sonhar utopias.
Um sabiá retoma o canto
E fantasia um desenvolvimento
O pintassilgo trina um contraponto
São duas melodias de momento
Clarejadas claramente
Aos ouvidos finos dos ouvintes.
Irrompe um coral de paturis
Respondem irrequietos bem-te-vis
Mil contrapontos – ufania.
Orquestra em “tutti” alegria.
De repente um tiziu alerta
Para o silêncio encantado
O Fauno desperta do sonho
A Mata livre dos machados
E das serras que a devastam.
E o Fauno ensaia um minueto
Harmônico, rítmico, harmônico
Alegreto das folhas, dos galhos ao vento
Turbilhão de instrumentos sibilos
Pipilos de aves dormentes
E troncos que ruflam tambores
E galhos que vergam rumores
Que fluem águas solitárias
Que fluem águas solidárias
Que vão ressoar nos leitos
Em árias, árias, árias.
Evoé, um brinde às avencas
Evoé, um brinde às samambaias
Sons em fuga dos cascalhos
Remanso sim – sinfônico
Sinfônico silêncio
Um fagote fantasia nova flora
Um “corn” inglês responde pássaro
Dobra o coro homens-natureza.
Hino à vida e à irmandade
Cresce a sonata, cresce a tocata
Há homens que entendem o mundo
Há homens que amam a música
Há homens, poetas da Mata.
Dalila, caríssima, com dois dias de atraso, nesta manhã outonal visito o seu blog, onde me detenho sobre a matéria publicada no Diário (4.3.07) a propósito da enfermidade do maestro Flavio Florence e sua brava luta para que a sociedade regional continue desfrutando da “massa fina” que representam os bravos componentes da orquestra por ele dirigida e o ótimo repertório sempre renovado graças à teimosia de um grupo artístico pouco reconhecido pela administração. A matériia me tocou no fundo profundo do coração, também contemplado pelo seu belo poema “Anticoncerto de domingo”, cuja motivação certifico e dou fé, pois participei do grupo que naquele domingo mágico conheceu outra dimensão do maestro: a sua sensibilidade também em harmonizar a filia, qualidade que comecei a perceber duante as aulas que ele nos deu no Alpharrabio, envolvendo história da música, instrumentos, compositores e tudo mais para aumentar nosso entusiasmo sobre a importância da nobre Arte, objetivando também a formação de auditório, num exercício didático exemplar. Esses momentos e nossa discreta convivência me conscientizaram da importância desse cidadão e sua luta em favor da cultura principalmente através da sobrevivência da orquestra. Creio, querida Dalila, que é chegado o momento de a gente se encontrar, como fizemos em l993, para refletir sobre a continuidade da orquestra e outras ações culturais em curso. Quem sabe durante a realização do proximo Congresso de História, em maio próximo, a gente possa disseminar essas idéias. Com um forte abraço do seu admirador de sempre (APS)