Personagens

Livraria6

O casal pede um expresso e um capuccino e vai sentar-se à mesa lá dos fundos. Namoro no intervalo, roubado à rotina da tarde clara de outono, observado pelo silencioso Jorge Amado, que lá do alto de sua imobilidade, parece enternecido com a cena. Durou pouco, porém, o idílio. Gritos estridentes, cantorias, palmas e risos vindos do auditório, dissiparam o clima. Rui Padoim e sua trupe ensaiavam novo espetáculo infantil, assustando os incautos frequentadores, acostumados à calmaria das tardes alfarrabistas. Mas placidez não é coisa compatível com esta casa, quando tudo parece ser o que não é, e, às vezes, é. Findo o ensaio, Hugo volta aos seus pincéis e, preciosista e lentamente, avança na nova pintura, cujo tema, uma enigmática máquina, que lembra o velho Da Vinci e desperta no espectador a vontade de colocá-la em funcionamento. Dura pouco também o solilóquio do pintor diante de sua obra, pois logo chega a monja e começa a preparar o ambiente para receber os meditadores urbanos que chegarão ao cair da noite. Na livraria, Marcos Lemes, quer porque quer uma Clarice que sumiu da prateleira, mas consta do sistema (enganosas máquinas essas que dizem que há, mas não há, quando na verdade deveria, mesmo, haver – livros são vivos e movem-se – parece não saberem elas, as máquinas). Mas é justamente quando Marcos e Hugo encetam um papo pra lá de viajante que eu resolvo me retirar e venho cuidar de colocar a vida em letras e pensar em viagens (outras). (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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2 Responses to Personagens

  1. Rosana Chrispim says:

    Saborosíssimo esse seu texto. E convidativo! Bate uma vontade de estar aí, sempre mais uma vez…! Saudade da degustação desse mundo tão próprio e tão gregário. A poesia farta! Felizes de vocês que fazem e vivem isso.

  2. bela fotografia, composição, cor, parabéns maninha!!!!
    abraços
    Constança