9º Congresso de História - alguns comentários e impressões pessoais

Pela nona vez, em 17 anos, a região do Grande ABC reuniu um significativo número de pessoas para discutir a sua história. No período de 22 a 26 de maio último, após mais de dois anos de intensas discussões (primeiro com um pequeno grupo de interessados, depois com assembléias gerais abertas ao público que apontou temas, sugeriu nomes, levantou questionamentos e, finalmente, com uma comissão executiva, composta de elementos da sociedade civil e funcionários do Serviço de Memória da Prefeitura Municipal de São Bernardo do Campo, que sistematizou todas as informações e fechou, finalmente, com a aprovação em assembléia, o seu formato) realizou-se o 9º Congresso de História da Região do Grande ABC, nas dependências do prédio histórico da antiga Escola Municipal de Ensino Santa Terezinha, em São Bernardo do Campo.
Ainda no rescaldo do entusiasmo com que participei, tanto da organização, como integrante da comissão executiva e participante desde as primeiras reuniões, registro aqui algumas impressões pessoais acerca desse momento tão significativo na vida regional.
Desde o encerramento de um ciclo (a realização do Congresso em todas as 7 cidades que compõem o Grande ABC) e a evidência de um certo esgotamento de conteúdo e formato até então utilizado, havia o desejo de renovação, manifesto por vários daqueles que desde 1990 participaram dos Congressos. Diante do iminente risco de esvaziamento, discutia-se, a urgência em inaugurar um novo ciclo. O Congresso teria que reinventar-se. Após a realização do 8º Congresso em Paranapiacaba, Santo André, em julho de 2004, essa situação ficou mais evidente e, por iniciativa de Alexandre Takara e José de Souza Martins, representantes desses anseios, houve uma convocação a todos aqueles que estivessem interessadas em analisar criticamente os 8 congressos e que pudessem discutir e opinar sobre a conveniência da sua continuidade e renovação.
No entanto, a opção pela mais ampla discussão através de uma construção coletiva, comunitária, participativa, nem sempre é o caminho mais fácil. A convocação para uma simples reunião, resultou num longo período de discussões virtuais exacerbadas e lamentáveis demonstrações, ora de egos inflados, ora de elevada carga emocional de vários dos protagonistas, resultando no cancelamento da reunião até que os ânimos se acalmassem.
Coube, afinal, à Seção de Memória e Patrimônio Histórico e Cultural de São Bernardo do Campo, a iniciativa de nova convocação, para uma reunião em 7.12.04, já direcionada à organização do 9º Congresso, assumido pela cidade de São Bernardo do Campo, seguindo a lógica dos outros Congressos, iniciados em Santo André. Essa reunião acabou também cumprindo o papel de avaliação crítica proposto anteriormente, com a totalidade dos presentes acreditando nessa renovação e comprometendo-se em empenhar todos os esforços para que a participação pudesse ser a mais ampla possível, aprimorando a fórmula inicial de reunir num mesmo espaço os pesquisadores acadêmicos e os chamados memorialistas e protagonistas da história local. Coube novamente ao idealizador do I Congresso, Prof. José de Souza Martins (através de uma carta ao então prefeito de Santo André Celso Daniel e com a posterior adesão incondicional do valoroso GIPEM – Grupo Independente dos Pesquisadores da memória, à época em plena efervescência, reunindo quase uma centena de pesquisadores), sugerir também o tema principal desta nona edição: A Classe Operária depois do Paraíso, aprovado por unanimidade numa assembléia geral.
Se não conseguiu se reinventar por completo, este 9º Congresso, em vários aspectos, se diferenciou dos demais. Já a partir do título, a princípio recebido com desconfiança, mas que ao longo dos trabalhos, foi sendo entendido como uma provocação, passando a ser o questionamento inicial de cada um dos palestrantes, a partir da conferência inaugural da prof. Suzana Sochaczewski, que, sem recorrer a nenhuma teoria bíblica nem creacionista, respondeu à provocação fazendo uma analogia sobre o “Paraíso” de Adão e Eva, que, no tal Paraíso, não trabalhavam e foram condenados a trabalhar, e a classe operária que, no suposto Paraíso, trabalhava e foi condenada a não trabalhar. Na 3ª. revolução industrial, quem faz o papel da serpente, ainda de acordo com a conferencista, é o ship, que automatiza e elimina o sonho de trabalharem todos e menos. “O castigo agora é não trabalhar” e, sobreviver, como forma de vida, em sua opinião “é o limite da desumanização”. Colocações, no mínimo, aterradoras e que retomam, de alguma maneira, o tema do primeiro congresso “A Classe trabalhadora em seu lugar”, buscando levantar pistas para responder qual seria hoje esse lugar.
Mas o congresso não se ateve apenas à discussão do atual mundo do trabalho, expandiu-se para todas as questões que acabam por fazer parte desse novo mundo e novo modo de trabalhar (ou não trabalhar). Ao invés de se debruçar apenas no estudo do passado, este congresso significou um mergulho e uma profunda reflexão do presente, sem deixar de olhar e considerar sua trajetória. A diferenciação se dá também no formato inovador, em especial, com a criação dos chamados Espaços de Diálogo, nos quais, a partir de inscrições prévias (pesquisadores acadêmicos e memorialistas, estudantes e outros interessados), foram debatidos os sete temas propostos (Dança no ABC; Gestão de Cultura e Ação Cultural; Futebol Operário; Movimentos Sociais – memória e meio ambiente; Educação e cultura: construção de conhecimentos; As Cenas Musicais no ABC; e Culturas e Formas de Trabalho). Também a criação de espaços informais dedicados a Memórias do Trabalho (com relatos de trabalhadores aposentados) bem como Conversas de Memória, trouxeram a memória oral como mais uma contribuição para o enriquecimento da história local.

Aline - Aline

Aline Fávaro Tomaz (bailarina especial, síndrome de Down, em intervenção relâmpago) foto dtv

Este foi também um Congresso que privilegiou as artes e a cultura. Intervenções artísticas antes das atividades programadas fizeram parte integrante do encontro e não mais como assessórios nos intervalos, aos quais ninguém presta atenção, pois um Congresso também são os bastidores, as trocas e os intervalos precisam estar livres para permitir a conversa e o convívio. Assim, através de apresentações relâmpago, os congressistas puderam tomar conhecimento de uma interessante gama de expressões artísticas nas áreas da literatura, música, dança, teatro e vídeo. Em apresentações mais completas e independentes, mas também como parte integrante, shows musicais, folclóricos e teatrais, além de exposições e lançamentos de livros e revistas.
Este talvez tenha sido o Congresso que tenha oferecido uma estrutura realmente digna de um verdadeiro congresso. A equipe designada pela Prefeitura para a organização foi composta, em sua maioria, de pessoas realmente comprometidas com a questão da memória que foram além da obrigação do cargo e exerceram o verdadeiro ofício da paixão, demonstrado em cada detalhe, como por exemplo, o esforço na publicação de um boletim diário.
Como nem tudo é perfeito, e quase nunca é, o objetivo de envolver a comunidade estudantil universitária não foi alcançado. Não que as universidades não tenham sido convocadas, mas que, por razões a serem ainda analisadas, os estudantes ou não foram comunicados ou, se o foram, não foram devidamente seduzidos. Não consegui participar do debate sobre o papel das Instituições de Ensino Superior do ABC no Desenvolvimento Regional, mas espero que durante o mesmo o assunto (do desconhecimento ou falta de interesse dos estudantes) tenha surgido pois, afinal, pelo elevado nível dos participantes, esse desenvolvimento, afinal, não deve ter sido entendido apenas como o econômico.
De minha parte, estou convencida que foi feito o melhor (e o melhor é sempre o possível) e rumaremos para uma reinvenção constante, assim como o mundo moderno o exige e a região, à busca de compreender a si própria também.

2 respostas para “ 9º Congresso de História - alguns comentários e impressões pessoais ”

  1. elizabeth brait alvim disse:

    Fundamentais os registros sobre o Congresso de História do blog Alpharrabio.
    Verdadeiro serviço de utilidade púbica.
    parabéns!

  2. Constança disse:

    só conhcemos os oceanos quando entendemos os nossos riachos