Fórum Permanente de Discussões Culturais do Grande ABC

Estimulado pelas discussões da comunidade cultural durante o Congresso de História do Grande ABC, realizado em São Bernardo do Campo, em abril de 2007, posteriormente durante as discussões da Jornada ABCDMaior, realizada também em São Bernardo do Campo, bem como em diversos momentos na Livraria Alpharrabio, em Santo André, um grupo de pessoas interessadas em criar um processo participativo e crítico das políticas públicas da cultura e da ação cultural na região do Grande ABC, bem como integrar ações regionais, vem se reunindo nas dependências do Alpharrabio, desde novembro último. Assim, ao mesmo tempo em que discute esse processo, o grupo tenta também elaborar projetos de auto-capacitação, para uma efetiva reorganização da própria comunidade cultural.
As primeiras reuniões foram dedicadas a pensar a construção de estratégias de atuação para o próprio grupo. Dessa forma, o grupo decidiu que as reuniões deste primeiro semestre de 2008 serviriam como processo de aprofundamento das questões ligadas à ação cultural e políticas públicas para a cultura, construindo um processo de acúmulo de massa crítica que possa dar respostas e exercer um papel de cobrança das administrações públicas. Sublinhe-se que, num ano político eleitoral como este, um diálogo com eventuais candidatos – ou mesmo, cobranças ou sugestões – acabará por acontecer e é preciso estar preparado e organizado para isso.
Assim, ficou acordado convidar pessoas com notório saber na área, que possam trazer bibliografia e informações sobre mecanismos de financiamento à cultura, municipais, estaduais e federais, formas institucionais de participação a serem estabelecidos diretamente com as administrações públicas, enfim, toda informação possível no sentido de preparar essa desejada capacitação. Ouvir dos gestores públicos suas idéias e planos para sua gestão, estabelecendo um diálogo de idéias entre o grupo foi outra decisão do grupo.

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Se assim foi decidido, assim foi cumprido. Na reunião do último dia 25.02, o grupo convidou Júlio Mendonça, poeta, professor universitário, com vasta formação acadêmica na área de gestão pública, como também na prática da ação cultural como agente cultural. Júlio, iniciou sua fala lendo o poema de Carlos Drummond de Andrade, “Um boi vê os homens” e dele se valeu para fazer uma analogia de que ação cultural é observar o outro, aprender com a cultura dos outros e aprender com nós mesmos, ou seja, um olhar comprometido com o que é diverso. Fez um breve histórico sobre as mudanças da idéia de cultura após meados do séc. XX, passando pela globalização e o seu consequente multiculturalismo, que leva a situações que cada vez mais requerem políticas públicas à altura da complexidade hoje apresentada. Analisou também historicamente as políticas públicas regionais ao longo da curta história da região e, mais recentemente, das experiências das oficinas culturais realizadas em várias de nossas cidades. Levantou a tese de que a sustentação das manifestações culturais pode ser trabalhada de uma maneira mais complexa e mais rica fora do plano econômico e do institucional, bem como da presença cada vez maior da cultura nos debates nacionais, como assunto transversal. A seguir, usou da palavra a outra convidada, Simone Zarate, Secretária de Cultura de Santo André, pessoa também com uma sólida formação teórica e acadêmica na área, funcionária pública de carreira, recentemente convidada a assumir o cargo na atual gestão, cujo mandato se encerrará no final deste ano, com as eleições para Prefeito Municipal. Realista, informou que “herdou” um orçamento já aprovado e empenhado, com pouquíssima mobilidade. Em sua opinião, não se pode falar de políticas públicas desconsiderando as políticas anteriores. Assim, passou a uma breve análise das últimas gestões de cultura em Santo André, das quais o marco a ser destacado foi a primeira gestão de Celso Daniel, em 1989, que volta à Prefeitura em 1997 e que não retoma vários dos seus projetos, em especial os dos Centros Comunitários, onde agentes culturais permaneciam junto à população, ouvindo-a e incentivando-a e fomentando as manifestação do entorno. Surpreendentemente, essa gestão faz uma opção por uma política de eventos (referindo-se aos shows em praças públicas e parques, ABC Folia e outros). Já na última gestão, do mesmo partido, optou-se pela formação, com a implantação das chamadas escolas livres, mas cujo fundamento jamais foi discutido nem anunciado. Simone entende que um dos pontos de sua curta gestão – restam-lhe 10 meses – para a qual confessa “não ter ilusões de praticar nenhuma revolução” será: a promoção da discussão urgente desses fundamentos relacionados com a formação cultural, bem como fortalecer o chamamento para a reconstituição do Conselho de Cultura, por acreditar que uma política cultural não existe sem a participação efetiva da comunidade. Deseja discutir, manter um diálogo continuado com a comunidade, uma vez que a partir de 1997 a Secretaria da cidade abandonou o diálogo. A cidade, acrescentou, bem como a produção cultural, sofreu mudanças profundas nos últimos anos, que a equipe da Secretaria não conseguiu acompanhar e, portanto, outra de suas preocupações que considera urgente é a capacitação dessa equipe. Na sua análise, as ações na Secretaria acontecem desconectadas umas das outras, as oficinas acontecem há anos com as mesmas pessoas à frente, sem nenhuma preocupação se é realmente isso o desejado e nenhum acompanhamento de como é que isso é continuado, ou seja, o que acontece depois dessa formação, pois não há nenhuma espécie de pesquisa nem indicador a respeito. Era seu desejo, disse ainda, fazer uma pesquisa sobre práticas culturais na cidade, mas além de não haver verba, este ano em especial, haverá muita restrição a material de divulgação por conta do ano eleitoral. Seguiu-se um debate entre as 26 pessoas presentes que decidiram continuar e ampliar para mais gente estes debates (o grupo já conta com 75 pessoas inscritas e interessadas, ainda que muitas não consigam acompanhar as discussões de forma presencial, daí o esforço nestes relatos virtuais). Para a próxima reunião do dia 31.03.08, uma segunda-feira, às 19h, na Livraria Alpharrabio, teremos mais dois convidados dentre aqueles nomes sugeridos e que serão anunciados tão logo aceitem os convites. Dalila Teles Veras, “secretária ad hoc” (na ausência absoluta de alguém que tenha se candidatado a tal tarefa). Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC.

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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