A sala multi-uso do Alpharrabio estava abarrotada, na manhã deste último sábado de março. O motivo? Ouvir uma voz abalizada (a da Prof.ª Carmen Sylvia Vidigal Moraes), falar de educação, utilizando como suporte a histórica voz do intelectual Antonio Gramsci, fundador do Partido Comunista Italiano e, no dizer da professora, “uma figura humana singular, cuja idéia fixa era a de lutar por uma sociedade melhor, uma sociedade igualitária”.
A palestra abriu o Idéias de Encontro deste semestre, ciclo de palestras mensais de discussões filosóficas que é promovido na livraria desde agosto de 2003 e que nos últimos dois anos conta com a parceria da Faculdade Editora Nacional – FAENAC que, assim, proporciona à comunidade o compartilhamento do saber acadêmico fora dos muros da Universidade.
Douta (com 3 pós-doutorados na França, e atual professor associado ref. MS-5 da Universidade de São Paulo), mas sem nenhum gesto que remetesse a qualquer resquício de arrogância, a Dra. Sylvia, percebendo que havia ali uma platéia heterogênia, composta por grande número de estudantes universitários, mas também por pessoas simplesmente interessadas em aumentar seu conhecimento, soube dosar sua erudição com o didatismo, tornando a sua memorável palestra acessível a todos os presentes. Isso, no entanto, não significa que em algum momento sua exposição tenha resvalado pelo “raso” e muito menos tenha subestimado a capacidade dos presentes em compreender o complexo pensamento do pensador italiano. Dona de uma fluência verbal que eu, atrevidamente, ousaria classificar de “apaixonada”, própria de quem realmente ama o que faz, a professora falou por mais de 2 horas, abrindo espaço também para perguntas do público, favorecendo um interessante debate.
Começando por contextualizar o pensamento e a época de Gramsci, preocupou-se também em esclarecer que ele não foi propriamente um teórico da Educação, mas que sua análise fornece elementos bastante interessantes para pensar a Educação nos dias de hoje.
Antes de sua prisão, em 1935, onde escreveu boa parte de sua obra, Gramsci foi jornalista e editorialista, publicando, no auge de sua militância, uma revista (L’Ordine Nuovo) voltada para os trabalhores, na qual havia a preocupação de elevar a cultura do trabalhador, veiculando ali o que havia de melhor, acreditando, assim, que quem pode mudar o mundo são os trabalhadores organizados e a cultura e a educação eram fundamentais para essa conquista.
Após discorrer sobre “a educação com hegemonia”, o debate trouxe o pensamento de Gramsci para a atualidade (“politecnia – como equivocadamente pensam alguns hoje – não é a mesma coisa que escola unitária, ou seja, uma escola igual para todos, ricos ou pobres”, lembrando a “dualidade brasileira que estabeleceu uma escola propedeutica (para os ricos) e uma escola profissionalizante (para os pobres)”, elevando, com este e outros apontamentos, a “temperatura” do debate.
Aguardemos a publicação da palestra, para que o debate possa ser ampliado para além das cerca das 70 privilegiadas pessoas que ali estavam. (dtv)

