Linha de Montagem
“…
As cabeças levantadas
Máquinas paradas
Dia de pescar
Pois quem toca o trem pra frente
Também de repente
Pode o trem parar
… ”
Novelli / Chico Buarque – 1980
Notas:
1. Esta estrofinha besta não me sai da cabeça. Tá tudo aí!
É uma teoria da revolução, praticamente.
As cabeças levantadas significam a tomada de consciência de classe.
As máquinas paradas, ora, são as máquinas paradas!
O dia de pescar é a rebeldia contra a exploração, o contrário do trabalho produtivo, do trabalho dentro das engrenagens da produção de mais-valia/capital.
E, enfim, a constatação de que a energia que move a sociedade, o trem, é uma única e mesma: o trabalho, a verdadeira substância que o capital conforma e deforma. Como disse o Velho Barbudo: o trabalho é toda a matéria e o capital é apenas a forma assumida historicamente pela produção; pode haver trabalho sem capital, mas não capital sem trabalho… (Tarso de Melo)
2. Essa canção (Linha de Montagem) ia ser apresentada ao público por Chico Buarque, pela primeira vez, a 20 de abril e depois a 27 de abril de 1980, no Show de Vila Euclides – espetáculo musical cuja renda seria encaminhada ao Fundo de Greve dos Metalúrgicos. No entanto, o show – que iria ter lugar em São Bernardo, no Estádio de Vila Euclides, foi proibido, duas vezes, pela Polícia Federal e pelo DEOPS de São Paulo, apesar de terem sido vendidos mais de 100.000 mil ingressos. (Adélia Bezerra de Meneses em Desenho Mágico, HUCITEC, 1982)

Quando as causas e objectivos são comuns e o envolvimento é colectivo, fazendo da luta uma festa e da festa uma luta, então, meus amigos, isto vai…
O Futuro – José Carlos Ary dos Santos
“Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente
Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente
Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.
O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.”
Neste maio, já que Isa, lá de Portugal, transcreveu a excelente poesia de José Carlos Ary dos Santos, aproveito para lembrar a luta dos trabalhadores do ABC, noticiada pela poeta Dalila Teles Veras, em seu livro Lições de Tempo ( 1982 – 1ª ed. e 1982 – 2ª Ed. – Editora Pannartz:
ESPERA
Aos Metalúrgicos do ABC 1980
O ódio
é tamanha a repressão!
O nojo
são tantas as armas!
A raiva
diante da impotência!
O grito
estrangulado nas
gargantas secas e caladas
O medo!
Os músculos tensos
Os membros inertes
O cansaço!
Cerrados os punhos
Entumecidas as mentes
Sofridos os corpos
Amputadas as línguas
– A vertigem!
Mas uma força, uma grande força
Sustenta estes corpos, fortifica-os:
As máquinas estão lá, paradas,
Dependendo desses braços, e eles
Esperam, tangidos pela força dessas máquinas e
Ficam lá,
Os homens, quase trapos, cansados, mas homens!
Calados, quietos, mas dignos,
Esperam[