Dia dos Namorados. Noitinha. A 15 minutos do fechamento do Alpharrabio, um homem pára seu carro em cima da calçada defronte à livraria, na contramão. Entra. Porta uma bolsa enorme e um sorriso enigmático, gestos suspeitos. Aproxima-se. Abre a bolsa. Sinto medo. Olho em volta e leio medo também nos olhos das outras três pessoas presentes. Tira de lá alguns papéis, entrega-me um deles (ufa!). Em voz muito baixa, diz-me que para que eu entenda o que deseja, precisa me contar parte da sua história. Estou tão atônita que finjo que leio o papel que me entrega, mas não consigo ler nada do que ali está escrito. Trata-se de um email. Ele vai contando a história. Possuiu uma loja, foi à falência, a mulher não aceitou o fracasso, caiu em depressão, procurou um psicólogo e por ele se apaixonou. O email era dela para o psicólogo, diz ele (e eu ainda sem o conseguir ler). O filho adolescente é quem descobriu a correspondência entre os dois. Dei escândalo, claro, afinal, não sou de ferro, confessa. Perdoar não sei se vou perdoá-la, mas, hoje é dia dos namorados e quero presenteá-la como ser humano, com algo que a ajude a superar as dificuldades. Eu também fiquei muito fragilizado e pouco posso ajudá-la, pois também preciso de ajuda. Ajude-me a escolher um livro que possa ajudá-la e a mim também!!! Senhor, digo, confusa, esse não é meu campo de estudo, mas vamos lá: O Caminho da Felicidade, de Huberto Rhoden, a carícia essencial, Roberto Shinyashiki, Paulo Coelho (ai, meu Deus! Será que ajudam?) Fui colocando na mesa esses títulos e outros títulos, coisas do tipo “felicidade em 10 lições”, “a arte de ser feliz”, “a felicidade ao alcance de todos”, “a felicidade só depende de você” “a felicidade está dentro de você”, “a felicidade custa pouco” “seja feliz e o mundo que se lixe”, lá da prateleira que mantemos lá nos fundos da livraria (afinal, não podemos vender só aquilo que a dona da livraria lê, gosta e aprova, até porque ela não acredita nessa tal felicidade que tanto buscam os leitores dessa “literatura”), ao mesmo tempo em que fui dizendo: bem, preciso alertar o senhor de que é muito difícil, ao invés de ajudar posso estragar tudo ainda mais. Recomendo que o senhor leia as orelhas, algum trecho do miolo e veja aquilo que melhor pode ser adequado ao seu caso. Pediu para usar o banheiro (?) e nós sempre a nos entreolhar… voltou, folheou mais alguns volumes. Escolheu dois: – um pra mim e outro para ela, depois trocaremos. Pagou. Há alguma uma floricultura aqui perto, perguntou? É só atravessar a rua, disse. Lá foi ele à sofisticada floricultura (para quem está falido, falido e meio…). Fechamos rapidamente a livraria e quando passei em frente à floricultura, lá estava ele a conversar com a vendedora, gesticulando, provavelmente a contar a mesma história… (dtv)
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“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” – Não há assim tanto tempo eram os pais que controlavam a correspondência dos filhos, principalmente das filhas, agora é o contrário?!
Quando houver respeito mutuo alguêm avise, certo?!
Se à “livreira” o medo retirou-lhe reacção (“seja feliz e o mundo que se lixe” ???? – isso não foi medo, foi pânico mesmo), ao personagem o medo (da perda) fê-lo reagir:
- Oh cavalheiro, que bela prova de amor – um livro e uma flor.
(infelizmente, eu não seria capaz de tal assertividade. Livro livro… nã.. eu escolheria antes a lista telefónica nacional por ser volumosa e em caso de arremesso faz mossa na certa)
tempos estes em que uma bolsa volumosa nos apavora
a aflição dos outros nos remete a encenação
estamos mesmo assim, todos nós, afinal as sombras mordem
e as que aprecem assim uau mordem mesmo
bela crónica a sua Dalila
Boa crônica, personagem intrigante!
já passei medo por causa de uma mochila onde eu sabia que só havia documentos e uma arma. Posso avaliar o seu susto, Dalila. A descarga de adrenalina deve ter ido a mil! Precisamos ter um plano B disponível para uma momento como esse…rsrs