A poesia foi o elo entrelaçando pessoas, manhã afora deste último sábado (02.08), num inverno que se recusa a acontecer. Daí que muita cerveja gelada foi necessária para aplacar as sedes e amaciar as gargantes secas, não só pela péssima qualidade do ar que acompanha este veranico julino em agosto entrante, mas sobretudo pelas intermináveis conversas. Os bons (e os maus) filhos à casa (quase sempre) tornam. No caso do Alpha, os maus (se é que o habitaram) jamais voltaram. Os bons, ainda que vôos mais altos os façam sobrevoar outros territórios, permanecem enraizados no solo do número 151 da Eduardo Monteiro. As chancelas mudam, os CEPs também, mas é ali que se dá o encontro físico, as trocas intelectuais e as rememórias.
Mas eis-me aqui enveredando por um relato a beirar perigosamente o lirismo, tom nada “compatível” com a proposta estética dos poetas em foco (ainda assim, arrisco), quando, na verdade, o motivo seria apenas o do registro, este: os jovens poetas Tarso de Melo e Danilo Bueno, voltam à casa que publicou seus primeiros trabalhos, para o lançamento de seus mais recentes títulos: Exames de rotina, Tarso de Melo; Editora da Casa, Florianópolis/SC; e Corpo sucessivo, Danilo Bueno, Oficina Raquel, RJ. Na contramão dos conglomerados editoriais (as mega isso, mega aquilo), pequenas editoras que, assim como a Alpharrabio, não só apostam na qualidade do que publicam, mas também demonstram a paixão pelo livro como objeto gráfico que dialoga com o conteúdo.
Também na contramão da impessoalidade das megalojas, a Alpharrabio se mantém como espaço estabelecido de encontro onde não há vendedor nem cliente, mas personagens da mesma história.
Sem mais delongas, aí vai uma ínfima mostra da poesia de ambos para a apreciação e a eventual crítica dos leitores. Aos que desejarem ir além da degustação, recomendo que passem pela Livraria Alpharrabio (Rua Eduardo Monteiro, 151 – Jardim Bela Vista, Santo André, Fone 11- 4438-4358) ou solicitem pelo email: alpharrabio@alpharrabio.com.br, que remetemos os livros pelo correio para qualquer parte do Brasil (dtv).
ESTÁ ESCRITO
Calma. talvez mais: frieza. é o que o dia pede.
não se deve perguntar ao garçom porque traz
no braço, em letras tortas, verdes, ainda legíveis,
que “amor só de mãe”. Nenhum samurai, nenhum
indígena, nem mesmo o nome dos filhos, de alguém.
nem ao vendedor de balas e chicletes porque preferiu
ir tão rápido ao assunto – “tô na luta: R$ 1,00” –
se seus concorrentes preferem abordar a clientela
com pedidos de socorro durante a tarde vermelha,
votos para a família, flores, frases de auto-ajuda,
descrições da desgraça, nada disso: neles a faca
da conversa não ameaça. O rio seca onde começa.
Tarso de Melo, in Exames de rotina
câmera automática
depois de aberta a flor até o talo, até o grão da geometria
(sepultura de iluminuras) demonstra-se que até o fim a
flor é uma composição, um arranjo para o sempre
de seu avesso orvalhado – respiração e luz, ausência e
inesgotável cor
aromas e arabescos descarnam o ar (os vasos mínimos)
agua sugada da terra para água do bico da pétala
alento dos ventos coroa das chuvas: trêmula branca
amarela rósea – suspensas as dobras do horizonte a
brusca corola irrompe contra o céu recôndito
Danilo Bueno in Corpo sucessivo

E depois ainda há quem fale de autocrítica excessiva! Depois de ler poesia desta qualidade, fica mais difícil julgar que o que fazemos tem tanto valor quanto… Estou certa de que como os meus respectivos exemplares estão reservados vou poder apreciar mais do Tarso e do Danilo!
Ganhei Exames de Rotina de presente. O livro que vai se deslocando e chega às mãos de outros. uma fuga. como os textos do poeta.
Tubarão-SC