Em tempo de Olimpíadas, um ping-pong poético (sem competição nem medalhas)

Manhã do último sábado, 23.08.08, no Alpharrabio. Quatro escritores, “um mineiro que mora em São Paulo, uma paulistana que circula pelo país, um andreense que mora em São Bernardo e um maranhense que agita as palavras desde o Piauí”, tentam responder à provocativa pergunta:
Por que e para quem Escrevo?
- “Não acredito que haja alguma condição pré-estabelecida para se escrever” (Mariana Ianelli)
- “Sempre quis escrever sobre algo que eu conhecia: literatura operária. Só encontrei três autores nesse gênero: Roniwalter Jatobá, Amando Fontes e Antonio Possidonio Sampaio. O meu propósito foi o de me inserir nessa corrente.” (Luiz Ruffato)
- Embora não pensando em atingir alguém, eu acredito que escrevo para mudar alguma coisa, sem esquecer o compromisso com a estética e a linguagem artística.” (Rubervam du Nascimento)
- “Não sei se vamos sair daqui com respostas. Escreve-se certamente para alguém. Escrevo “contra alguém” e tem esse sentido de mudar. Cada poema que se escreve é um caminho na direção de saber por que se escreve. A resposta é dada com cada poema e altera o sentido dessas questões; você não domina para que e para quem. A própria poesia é que te diz que você não tem poder sobre isso.” (Tarso de Melo)
- “A poesia surgiu justamente da tentativa de buscar pelo sentido das coisas” (Mariana )
- “Os primeiros livros que escrevi li para minha mãe analfabeta e ela entendeu tudo. Nenhum dos meus livros foi publicado sem que um leitor “comum” tivesse lido. Eu gostaria de escrever para essas pessoas.” (Ruffato)

- “Participação é um dos objetivos de quem escreve. Mexer no coração das coisas. Uma ocasião, lendo poemas de meu livro Os Cavalos de Dom Ruffato, num acentamento de terras em Pedro II, no Piauí, um senhor veio me confessar que possuía um cavalo, mas que não gostava do nome dele (dada) e me perguntou se poderia dar a ele o nome de “Dom Ruffato”. Tentei argumentar que o cavalo dele já representava a palavra cavalo, mas não adiantou. ficou “Dom Ruffato” mesmo. (Rubervam)
- “Neste momento há pessoas escrevendo poemas na China, no Afeganistão, em Bagdá, em condições improváveis, sem se preocupar que uma bomba irá cair sobre suas cabeças. Isso já é uma mudança no mundo (pelo menos para aquela pessoa e para o escritor que é nome de cavalo. E de um cavalo engajado…” (Tarso)
- “é a vontade de “cartografar (…) Cada livro publicado é um passo que se dá. Em seqüência, eles formam um percurso. Talvez um percurso da esperança ao desespero, mas, enfim, o que vale é estar sempre caminhando, não importa exatamente a que destino” (Mariana)
- “Sou mais leitor de poesia do que de prosa (…) Entretanto, a grande maioria dos poetas brasileiros hoje não dialoga, fala para si mesma, perfeitos na técnica, só que não dizem absolutamente nada. A palavra chave é a subversão” (Ruffato)
- “O que move a minha poesia é a infância do meu lugar e dos homens que viveram comigo” (Rubervam)
- “O leitor de poesia gosta do que não compreende e compreende o que não gosta. As palavras não são dos poetas, são de quem lê. A gente conhece a poesia em cada poema (…) As armadilhas: escrever para se mostrar igual, para se pasteurizar. Se você nega isso, você melhora sua poesia e faz com que sua poesia melhore como um todo” (Tarso)

Luiz Ruffato é autor, entre outros, de Eles eram muitos cavalos (Ed.Boitempo) com diversas edições, bem como da trilogia Inferno Provisório, da qual constam os romances Mamma, son Tanto Felice, O mundo Inimigo e Vista Parcial da Noite (Ed. Record). Mariana Ianelli, jovem jornalista, autora de vários livros de poesia, lançou recentemente Almádena. Antes, publicou Passagens, Duas Chagas e Fazer Silêncio, todos pela Ed. Iluminuras. Tarso de Melo, publicou A lapso, Carbono e, mais recentemente, Lugar Algum, todos pela Alpharrabio Edições. Planos de Fuga e outros poemas, pela Ed. Cosacnaify, Acaba de lançar Exames de rotina, pela Editora da Casa. Rubervam Du Nascimento, poeta nascido em São Luis do Maranhão, radicado em Teresina, autor de A Profissão dos Peixes (que tem várias edições, “sempre revistas e diminuídas”), publicou também, entre outros, Os Cavalos de Dom Ruffato , livro premiado pela Fundação de Cultura Cidade do Recife e veio a São Paulo lançar, na Bienal do Livro e no Alpha, o seu Espólio, vencedor do Prêmio Literário da Livraria Asabeça 2007.
Com a presença de vários outros poetas na roda, entre autógrafos e castanhas de cajú transportadas desde Teresina na bagagem do poeta e um vinhozinho ofertado pela casa, a conversa se estendeu para além da mesa de debates, continuou no almoço e se encerrou por volta de 17h00, com um abraço, na estação Imigrantes do metrô onde deixamos Rubervam rumo ao seu retorno solitário, necessária pausa para retomadas futuras.

EM TEMPO: A propósito (e não por acaso), o Edmundo selecionou para amanhã, quarta-feira, às 15h00, dentro da programação do cineclube Alpharrabio, o filme Olympia (Parte 2), da genial alemã Leni Riefenstahl (96 min. / p&b, Alemanha, 1938), um documentário sobre os Jogos de Berlim. O corpo humano em movimento, como celebração de beleza. Não tenho dúvidas que a discussão será acalorada (a arte a serviço do nazismo ou a arte apenas criada durante o regime nazista? o que, convenhamos, são coisas diferentes). Vamos lá conferir). (dtv)
3 de Setembro de 2008 @ 17:59
Alguma coisa errada existe na cultura de um país que rejeita um toque, um aperto de mão,um abraço, um beijo, qualquer que seja o afeto –paulo freire.
Escrevo para quem está pronto para transpor a ponte abissal que existe entre o viajante e o coração das coisas.
Se existe poesia na nossa América, ela está nas coisas velhas: em Palenque e Utatlã, no índio legendário e no Inca sensual e fino, e no grande Mnntezuma da caveira de ouro. O resto é teu democrata Walt Whitman. Buenos Aires: Cosmópolis. E Amanhã.
E viva Rubén Dario:
Eu não tenho literatura “minha”.
E viva Olivério Girondo ( que nome melódico!) e sua peculiá forma de felicitá: La gaya barbárie e suas Persuasíon de los dias e sua tienda nômade.
E viva Mário Faustino e sua Disciplina e rigor: o que o público não quer compreender é que lhe queiramos mostrar algo diferente do que ele procura.
E um rascunho para comemorar nosso Sábado 23:
CLARIDADE
manhã traz a alparrábio
quatro poetas na bagagem
três sóis e uma lua de palavras
em companhia das frestas
que descem acesas do teto
furam chão do recinto
em busca do escuro maldito
que enlouquece a noite
disseram é dia é dia escutemos
sons que o vento da rua
divide com o silêncio
saído de dentro do espaço
protegido pelos livros
Até outro dia, amigos, até outro dia.
Abraço enorme
Rubervam Du Nascimento
e-mail: rube.rv@hotmail.com
31 de Julho de 2009 @ 07:49
Hoi
Sou mocambicana e escrevo poemas em portuguesh e ingles relacionados com o mundo ou vida quotidiana e por ac aso relacionados com o Brasil e ate escrevo pormas espirituais. Favor pode dar-me informacao como publica-los ou entrar em competicao