Morre jovem o que os Deuses amam
Domingo: no silêncio respeitoso que velava o corpo do maestro Flavio Florence, meditava eu sobre as inúmeras vezes em que minha trajetória de vida cultural e intelectual cruzou com a dele nestas últimas duas décadas. Assisti, com toda a família, no Teatro Municipal de Santo André, ao primeiro concerto da Orquestra regida por ele, há exatos 20 anos; fomos colunistas no Diário do Grande ABC no mesmo período de quase 5 anos; por duas vezes, ele ministrou no Alpharrabio o curso Música Clássica para Leigos, composto de 16 aulas voltadas àqueles que gostam de música, mas não são profissionais da área (o que é o meu caso, razão pela qual fui uma das alunas). Com invejável cultura e raro didatismo, ele esclarecia os principais pontos da história da música ocidental, dando ênfase ao efeito antecessor. O maestro falou-me de sua vontade em ministrar também aqui um curso sobre como ver/ouvir ópera, mas que acabou não acontecendo. Os poetas do Grupo Livrespaço, do qual eu fazia parte, participaram de um concerto regido por ele no Teatro Municipal de Santo André, no qual líamos poemas nos intervalos das peças de Villa- Lobos, encerrando a Semana Livrespaço de 1992 que evocava a semana de 22. Por uma dessas inexplicáveis coincidências, o texto que antecedeu estes dois textos sobre Flavio, tem como ilustração uma foto do poeta José Marinho lendo poemas justamente naquela ocasião. No ano de 1999, a campanha “Um Piano Para o Grande ABC”, promovida pelo Diário do Grande ABC, tendo à frente Alexandre Polesi, resulta na compra de uma magnífico piano Steinway & Sons, modelo D, Grand Concert e na criação da Sociedade Pró-Música Grande ABC, entidade destinada à difusão da cultura e da música de concerto em todo o Grande ABC e que é também a proprietária legal do Steinway & Sons, responsável também por sua manutenção, que, a partir de então, passa a promover concertos, trazendo a Santo André e a outras cidades do Grande ABC, nomes, do porte, dentre muitos, de Nelson Freire e Arnaldo Cohen (este último responsável pessoalmente pela escolha e compra do piano na Alemanha). Tive a honra de participar, ao lado de Florence e de outras tantos amantes da música, não só da campanha, mas também como sócia-fundadora e membro da diretoria, em todas as gestões, da qual Florence ocupou até sua morte o cargo de Diretor artístico. Em 29.10.2004, por seu intermédio, mantivemos uma memorável conversa de livraria no Alpharrabio com o maestro português Álvaro Cassuto, regente titular da Nova Filarmonia Portuguesa, que se encontrava em nossa cidade para reger, como maestro convidado, a Orquestra Sinfônica de Santo André. Flavio voltou ainda ao Alpharrabio, como convidado, em abril de 2006, para comentar o filme Nelson Freire, de João Moreira Salles, dentro do ciclo de Documentários Nacionais, Prova dos Nove promovido pela livraria e o fez com a competência e erudição de sempre. Na ocasião, falou, comovido, da emoção de ter recebido o grande pianista brasileiro Nelson Freire, como solista, em concertos de nossa Orquestra Sinfônica.
Por duas vezes, Florence foi matéria deste blog: a primeira, no dia 25.9.2006, sob o título Orquestra Sinfônica de Santo André pede socorro, quando divulgamos um manifesto dos músicos sobre as imensas dificuldades vivenciadas pela orquestra; e, em 20.3.2007, sob o título Bravo! Maestro, referindo-nos à “bravura” diante de sua luta contra a fatalidade que o acometera, publicando dois poemas (um meu e outro de Wagner Calmon, em sua homengagem). Em 25 de maio deste ano, no Teatro Municipal de Santo André, Flavio entrou, mais uma vez, no palco do Teatro Municipal de Santo André, sua residência artística, mas, para desalento daqueles que, como sempre, lotavam o teatro, a doença, visivelmente, começava ali a vencer a batalha. Fraco, cambaleante, regeu possivelmente com o olhar e o fogo ainda aceso de sua arte e da vontade inabalável do fazer. Após sofrer novas intervenções cirúrgicas e contrariando recomendações médicas, em agosto último, saiu do hospital para reger como maestro convidado, a Orquestra Sinfônica Brasileira, na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, dando a conhecer ao público brasileiro, com absoluto ineditismo, peças sinfônicas do compositor português Eurico Carrapatoso. Aquele seria seu último e glorioso concerto.
Domingo, às 15h00, quando o aplaudíamos pela última vez no Saguão do Teatro Municipal de Santo André, na saída da urna com o seu corpo em direção ao carro funerário que o levaria para o Crematório da Vila Alpina, fui acometida de uma sensação de imenso vazio. A perda de um irmão de quem nunca privei de intimidade, mas que tive o privilégio de tê-lo como contemporâneo e cúmplice no campo da arte e do pensar. Como bem o disse Pessoa, (citando um preceito da sabedoria antiga) por ocasião da morte do amigo e companheiro de letras Mário de Sá-Carneiro: “Morre jovem o que os Deuses amam” . (dtv)