Por ocasião do encerramento da Exposição Vestígios, no último dia 04 de junho, uma mesa de debates reunindo os três artistas Edilson Ferri, Thaís Graciotti e Marta Masiero, mais a curadora Agda Carvalho, abordou o instigante tema “A estampa e os vestígios cotidianos”. Momento rico em reflexões, que a mediadora, armada em repórter “ad hoc” tenta aqui registrar, tentativa de provocar novas reflexões.

Agda iniciou sua abordagem dizendo da reflexão prévia sobre um espaço que tivesse um significado para abrigar a exposição e que a escolha recaiu no Alpharrabio pelo fato de ser um local aglutinador de várias linguagem e de sentidos : “Trata-se de um projeto inicialmente ligado à moda, não uma fronteira, mas os encontros possíveis com a moda e a moda esbarra na questão da estampa. A mostra reflete como os artistas estão conectados com o cotidiano e esses trabalhos buscam o entendimento com os grupos visto que em tempo virtuais, apesar das redes sociais, estamos sós. A “materialidade” se dá hoje na arte e uma coisa interessante é que volta a discussão na arte.”

Sobre seu próprio trabalho, disse Edilson Ferri: “perceber o espaço físico e o universo virtual, buscando links de lugares que não estão ligados. Somos acometidos hoje de uma neurose de querer saber o que está acontecendo em todo mundo e não estar em lugar nenhum. Acredito que meu trabalho dá a oportunidade de vivenciar, abre uma conversa para o comportamento e o universo virtual e imediatista. Uma colagem digital – o real que vai para o virtual e que volta para o real, físico, ou seja, a materialidade que volta. Os trabalhos têm em comum fazer pensar o que nos rodeia. Se por um lado existe o registro imediato (a gente faz e daqui a pouco está no blog, a memória volátil, o guardar muita coisa sem o olhar seletivo), só mesmo quem esteve e vivenciou é que entende e, vivenciar hoje, é a grande dificuldade. Se não vivenciamos, não há registro e não conseguimos passar isso pra frente. Não se guarda a totalidade, apenas os vestígios. E quais são os vestígios? as imagens que ficam? Curadoria é também selecionar e interpretar. São preocupações que tenho.”

Marta trabalha com a questão da memória, objetos com história, como toalhas rendadas, que começou a explorar plasticamente e geraram reflexões (material frágil com carga forte) para uma construção da imagem da mulher hoje, delicada e ao mesmo tempo forte. Essa imagem tanto pode ir para um lado mais sensual quanto para o familiar, são os seus contrapontos. Trabalha com serigrafia e sobreposição de carimbos. Tentativa, segundo ela, “de união de fragmentos, presente, passado e porvir, construção do ser humano”.

Thaís, justifica a escolha da temática “Ilha” pelo fato de, ela própria, ser de uma ilha (Vitória, ES). Seu trabalho foi realizado numa comunidade na Ilha das Caeiras (ES).
“Não pensar o ilhéu como isolamento, mas com o sentido de abertura, multiplicidade da palavra, presença e vestígio, a palavra colada nas camisetas, nos corpos, a palavra para me inserir naquela paisagem, fazer parte, como ilha, naquela ilha.” Depois disso, começou a viajar para ilhas e, na impossibilidade de fazer com que as pessoas vestissem a camiseta com a palavra “ilha”, a palavra passou a ser colocada em todo lugar, “palavra como demarcador e resignificação de objetos, estética Ilha.”
Após a fala dos quatro convidados, ouve o debate com a platéia que acabou botando muita lenha na fogueira. Para se ter uma idéia do calor que ali foi gerado por tanta energia, algumas questões jogadas na arena:
- a questão da moda encarada pela Academia apenas como uma leitura semiótica, agora como vestimenta que interfere no comportamento;
- moda como atitude de contracultura que o Sistema incorporou;
- o monopólio da fala e da comunicação; o processo histórico;
- o que se entende como corpo; “secund life”?;
- o material teórico; diálogo com a poesia e a geografia;
- uma nova globalização; sociedade de gente que come demais;
- na prática a política é outra; as discussões do antigo CEPS, em Santo André, levaram pessoas à política, que hoje ocupam alto cargos governamentais, cultura política que a cultura da geração da imagem não consegue manter;
- sequer conseguimos registrar aquilo que fizemos no passado;
Ilhas entre livros, lugares impossíveis, mas muito prováveis, memórias rendadas, que ficarão… Desde ontem, as paredes são outras, outras são as memórias, igualmente dignas de visita e discussão.
E mais tempo houvesse, mais mundos discutiríamos… (dtv)
E.T.: como sempre, as fotos são de Luzia Maninha.